ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

25479_4 “O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito elétrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisa, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego”.
Esse é um dos primeiros trechos de Ensaio Sobre A Cegueira, obra lançada em 1995 pelo grande e eterno José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Com este romance, o autor traz uma história dramática, onde parece que o mundo resolveu dar uma lição nos seres humanos.
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Um homem cai em uma cegueira de repente, entretanto, essa é uma cegueira branca. Aos poucos, cada página mostra que esse não é um caso isolado, essa brancura atinge ao planeta inteiro. Por causa disso, o ser humano terá que voltar às suas origens, se apoiar um n outro para continuar vivendo.
O auxílio da tecnologia não existe mais, as ruas ficaram desertas, cheias de pessoas andando a esmo. Comida e água se tornaram escarros, dejetos humanos são espalhados por todos os lugares. Mesmo com essas dificuldades, alguns insistem em objetos de valores e tramam de tudo para se beneficiar, algo do próprio Homem. Um cenário verdadeiro apocalíptico.
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Saramago não nomeia personagens, nem lugares. Talvez, essa foi uma alternativa para enfatizar que esse tipo de “Cegueira” está em todo o lugar, é universal. “Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”.
A trama ganhou os palcos do teatro e os cinemas com o diretor Fernando Meirelles em 2008. O longa foi gravado em  Toronto (Canadá), São Paulo e Osasco (Brasil) e em Montevidéu (Uruguai). No elenco tiveram nomes como Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael Garcia Bernal e Alice Braga.
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O livro traz algumas frases bem reflexivas:
-É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.
-Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira.
-Alguns irão odiar-te por veres, não creias que a cegueira nos tornou melhores, Também não nos tornou piores.
-A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.
-Mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos.
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-Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.
-É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos.
-Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras.
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Com certeza, a que mais capturou a atmosfera do livro de Saramago foi esta que encerra a história:
-Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
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