SAMURAI SHOGUN

174967_10150273693191937_115786371936_7887522_6165183_o Não é de hoje que a Revista Piauí traz belas reportagens, com seu foco diferenciado e as palavras que inspiram literatura a cada verbete. Samurai Shogun, da edição 59, é uma delas.
A matéria é sobre Mauricio Shogun, um dos brasileiros que se destacam no octógono do UFC.
Diferentemente do lado agressivo do esporte,  o texto aborda um faceta não explorada do lutar. Seu jeito calmo, o lado família, os bastidores de cada combate. Um ótimo trabalho de Fábio Fujita.
Uma nova abordagem de um tema bem explorado pela mídia nos últimos dias. Segue trecho abaixo.
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hogun costuma subir ao ringue uma vez a cada quatro meses. No dia da luta, chega ao ginásio com quatro horas de antecedência. Se muitos atletas só faltam bater a cabeça nas paredes do vestiário para lidar com a adrenalina pré-luta, Shogun demonstra uma tranquilidade incomum: chega a tirar um bom cochilo momentos antes de subir ao octógono. “Isso é muito mais um traço de personalidade do Shogun do que uma regra na modalidade”, analisou Cozac, apontando que em esportes de grande explosão física, como o MMA, a ativação psicológica para um alto rendimento tende a ser detonada pela ansiedade, não pelo relaxamento.
Quando Shogun desperta da cochilada, faz um aquecimento de quarenta minutos, à base de alongamentos e de socos e chutes em colchonete. “O atleta tem que entrar já suando no ringue, com o batimento cardíaco bem alto”, explicou o técnico de Shogun, Rafael Cordeiro. “Não pode esperar começar a luta para subir o batimento, porque muitas vezes isso até baixa a pressão do atleta.” Por superstição, o lutador sempre usa sunga e calção na cor branca. Faz uma última prece junto com a equipe e encaminha-se para a boca do túnel que o leva ao octógono. É o momento de maior expectativa para Shogun.

No trajeto até o octógono, passando pelo meio do público, Mauricio Shogun já está um pouco mais relaxado. Gosta da energia da plateia. Procura mentalizar que “o pior já passou”, lembrando-se do longo período de treinamento e de privações – social, familiar, alimentar – a que se submeteu para estar ali. Garante não ter medo de se ferir – só de perder. “A maior cicatriz de uma luta é a derrota, não os machucados”, explicou.
Mas é claro que algumas situações no octógono o deixam inseguro. Estar por baixo do adversário, no solo, é o pior dos cenários. “Porque assim o cara está pontuando e você precisa reverter”, disse. E também porque sua especialidade é o muay thai, que se desenvolve em pé, combinando boxe e chutes. Shogun considera a joelhada o seu golpe mais contundente: com ela, quebrou três costelas de Rampage quando os dois se pegaram no Pride.
A luta também é psicológica: quando o lutador acusa uma pancada, o adversário tende a partir com tudo para cima. “Se eu sinto o golpe, tento mostrar que não senti. Às vezes a gente tem que ser meio que um ator ali”, revelou, rindo. Quando um atleta reclama de ter sido acertado abaixo da linha de cintura, Shogun garante que é encenação para ganhar tempo, uma vez que os lutadores são obrigados a usar uma proteção local, a coquilha: “Não tem como sentir um golpe ali.”mauricio-shogun esde junho, ele está em Los Angeles, treinando para o combate no UFC Rio. A esposa e a filha o acompanham, assim como a sogra, que cuida de sua alimentação. É a primeira vez que Shogun treina nos Estados Unidos, na academia de Rafael Cordeiro, a Kings MMA. Treinam ali lutadores de várias categorias, de modo que um faz as vezes de sparring do outro. Shogun se exercita de segunda a sábado, seis horas por dia. Nas duas horas pela manhã, faz musculação e condicionamento físico. De tarde, são duas horas de wrestling. À noite, são outras duas horas, agora de muay thai.
Cordeiro avalia que seus métodos são mais intensos do que os das escolas americanas. “Nosso treino é bem perto da realidade”, disse. “Se for dar uma cotovelada na cara do parceiro, você coloca proteção nos cotovelos e pode dar, sem problemas. A proteção é para não cortar, mas o atleta sente o impacto da pancada. É uma guerra.”
Voltar a treinar sob a batuta de Cordeiro, de quem estava afastado há quatro anos, foi uma decisão que Shogun tomou depois da sua luta mais recente, contra o americano Jon Jones, em março. Era a primeira vez que o brasileiro defendia o cinturão que tomara de Lyoto Machida. Dominado desde o início, Shogun perdeu por nocaute técnico no terceiro round, depois que, sem conseguir se defender de uma sequência de socos e joelhadas, o árbitro interrompeu a luta.
“Fiquei muito chateado com a minha performance, não tive chance”, disse ele. Acredita que perdeu por não ter se preparado direito, por ter se acomodado numa zona de conforto. “Como tive títulos no Pride e no UFC, eu não tinha algo maior para almejar”, explicou. Agora, ele tem: recuperar o título que foi seu por apenas um combate.Mauricio Rua - 001 epois de oito anos, será a primeira apresentação de Shogun numa arena brasileira. A última havia sido em agosto de 2003, no Meca World Vale Tudo, realizado em Curitiba. A expectativa é grande na família Rua, mas no evento carioca Shogun já sabe que não verá, na plateia, a mãe. Ao longo de toda a carreira dos dois filhos lutadores, Clementina só assistiu a uma luta, traumática: começou a passar mal quando viu o adversário se impor sobre Mauricio.
“Tive uma quedazinha de pressão, porque no começo o Mauricio apanhou um pouco”, recordou. Ela cumpre um ritual solitário nos dias em que Mauricio luta. As orações começam horas antes do início do combate, e duram até que alguém da família telefone para avisá-la do resultado.
O pai é presença certa no Rio. Antônio virou um entusiasta que vê na televisão mais MMA do que futebol. Na luta em que Shogun sucumbiu frente a Jon Jones, Antônio estava no ginásio, na fileira mais colada ao octógono. “Fiquei emocionado e chorei muito, mas ele não me viu chorar”, confidenciou. “É duro para um pai porque, quando os filhos eram crianças, se imaginasse alguém batendo neles, pulava em cima.”
 
* Trecho retirado da Revista Piauí, edição 59
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