CLINT: IMPLACÁVEL PT: 4

clint-eastwoodDas profundezas ele surge, como um legítimo personagem fantasmagórico dos tempos de western ou como o justiceiro das ruas Dirty Harry. Desta vez, Clint Eastwood resolveu aparecer no intervalo do Superbowl, não em trailer de um filme novo, mas em um vídeo publicitário de uma empresa automotiva. Mas qualseria o motivo, razão ou circunstância?

Durante suas entrevistas, Clint sempre mostrou ser uma pessoa com opiniões políticas. Ele foi prefeito da cidade americana de Carmel-by-the-Sea, no estado da Califórnia, em 1986. Ele é membro do partido republicano, ao qual é filiado desde 1951. Ajudou na campanha de Richard Nixon à presidência de 1968, e se autodescreve como libertário.

O cineasta pertence a uma geração onde os Estados Unidos viveu seu apogeu. Porém, nos últimos anos esse poderio foi abalado pelos ataques de 11 de setembro e as crises econômicas.

clint_eastwoodEm Gran Torino, seu personagem Walt Kowalski representava essa origem de ascensão econômica e política, adepto do trabalho artesanal em uma fábrica de automóveis. Contudo, seu mundo caiu em decadência junto com o desemprego e a violência de Detroit. O comercial é uma injeção nos ânimos do povo americano. Nada melhor que a mensagem seja passada por um ícone e tudo que ele representa. Sua voz rouca (quase um rosnado) e os movimentos contraídos da boca revelam a entidade eastwoodiana.

Gran Torino2“… Clint mantinha um carro velho, que de alguma forma escapou da destruição em algum de seus filmes, e gostava de ficar rodando com ele—ia de uma lanchonete que alguém recomendara em algum bairro insalubre de LA a um lugar de comida mexicana no interior do vale (naquela época ele era menos preocupado com a sua alimentação). Os balconistas e fregueses naturalmente o reconheciam, mas não expressam mais do que um arregalar de olhos, talvez um aceno de cabeça. Acredito que sempre tenha existido certo reconhecimento tácito entre grande parte do seu público de que Clint é um dos deles—um homem da classe trabalhadora sem necessidade de evitar esta identidade. Ou que faça disso uma grande coisa.”

(Trecho da biografia do cineasta escrita por Richard Schickel)

À persona eastwoodiana é preciso, pois, acrescentar esta outra característica: uma capacidade de se metamorfosear no próprio país. Eastwood não cessa de se inflar na medida do tamanho da América, tudo o que lhe acontece, acontece também à América. Clint não é mais um homem, não apenas, mas uma terra e um ícone quase religioso. Esta inflação do ego, que poderíamos sem dúvida achar um pouco pretenciosa, vista daqui, é um movimento muito natural na arte americana. Eastwood não inventa nada: ele se inscreve na longa lista de artistas, de todo tipo de técnica, a se pensar como um modelo possível para a América, como uma versão idealizada da América. H. D. Thoreau ou Walt Whitman poderiam ser os primeiros dentre estes.

(Por Stéphane Bouquet – Escritor, roteirista e crítico de cinema, tendo sido por muito tempo redator da revista francesa Cahiers du cinema)

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