BICHADO

bichadoUm soldado, desertor na Guerra do Golfo, desenvolve uma crescente paranoia envolvendo experimentos secretos feitos em militares pelo governo americano. Esta é a trama de Bichado (Bug, 1996, EUA), primeira montagem no Brasil de texto do dramaturgo e ator americano Tracy Letts, ganhador dos prêmios Pulitzer e Tony. Comédia de humor negro, o espetáculo está em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental

Com tradução de Thiago Ledier, preparação de atores de Inês Aranha e direção musical de Fernanda Maia, espetáculo tem Einat Falbel, Paulo Cruz, Alexandre Freitas, Adriana Alencar e Rodrigo Caetano no elenco. A peça retrata uma história de amor cercada de paranoia e fecha questão em temas como teorias de conspiração e o lento caminho para a insanidade da mulher, sob forte influência do amante.

O diretor Zé Henrique de Paula conheceu a escrita de Tracy Letts, por conta de outra peça que assistiu, August: Osage County (Agosto: Condado de Osage, Prêmios Pulitzer e Tony, em 2008). “Ele tem uma mão incrível para escrever diálogos afiados e cortantes, sempre tentando radiografar a classe média, no caso de Bichado, mais à margem da sociedade. Além disso, o texto toca em questões muito relevantes hoje em dia, neste tipo de sociedade urbana em que vivemos, como a solidão do homem contemporâneo e a sua frágil saúde mental, a felicidade química nas grandes cidades e a vigilância sobre as nossas vidas privadas”, diz o diretor, que abordou este último tema em uma de suas recentes montagens, O Contrato.

Sinopse

As cenas se passam no quarto de um motel de beira de estrada, nos limites de Oklahoma, Estados Unidos, onde vive a garçonete Agnes White (Einat Falbel) , quarenta e quatro anos, escondida de seu violento ex-marido, o ex-presidiário Jerry Goss, quarenta e poucos anos, que está prestes a voltar. Uma noite, sua amiga gay R.C. (Adriana Alencar) apresenta-a a um veterano da Guerra do Golfo, Peter Evans, (Paulo Cruz) vinte e sete anos. Ela começa um relacionamento amoroso com ele, que desenvolve uma crescente paranoia sobre a Gerra do Iraque, envolvendo experimentos secretos feitos em soldados pelo governo americano.

Peter tem certeza de que foi cobaia em experiências do exército americano e está extremamente nervoso na angústia de que os cientistas estejam em seu encalço. Essa estranha sensação é potencializada por um helicóptero que vive dando rasantes sobre sua cabeça. Quando o casal tem o quarto invadido por insetos, essa comédia de humor negro fica cada vez mais bizarra.

Bichado-de-Tracy-Letts_Foto-de-Ronaldo-Gutierrez_Atores-Adriana-Alencar-e-Einat-Falbel__A Trilogia da Guerra

Bichado foi a escolha do diretor Zé Henrique de Paula para encerrar a Trilogia da Guerra, composta também por Casa Cabul e As Troianas. Segundo o diretor, cada peça tem um ponto de vista diferente sobre o assunto. “Bichado oferece o contraponto que precisávamos para poder falar dos efeitos da guerra na vida de pessoas comuns, o estresse pós-traumático e, além disso, metaforicamente, da guerra como força latente na vida diária e cotidiana. O trânsito virou uma guerra, a guerra contra as drogas, o relacionamento é uma verdadeira guerra”, explica ele.

Para o diretor, “o teatro deve ser um lugar para o questionamento constante sobre a fragilidade das nossas existências e sobre como o ser humano entende este mundo, sobre a perene crise de valores que acompanha a nossa caminhada e o nosso relacionamento com o outro”. Para isso, ele tem procurado textos que proponham olhares sobre essas questões e o material é abundante. “As três peças da Triologia da Guerra tratam dessa intersecção entre o Eu (indivíduo) e o Outro, pela via da intolerância (As Troianas), da descoberta (Casa/Cabul) e da simbiose (Bichado)”.

Escolha do elenco e preparação de atores

No final do ano passado, o diretor Zé Henrique de Paula e o Núcleo Experimental de Teatro abriram processo seletivo de atores para montar o elenco de Bichado. Foram mais de 100 inscritos e 20 selecionados para participar da oficina, comandada por Zé Henrique de Paula e a preparadora de atores Inês Aranha, que trabalha com o diretor há seis anos.

“A formação de elenco é uma das tarefas mais importantes do processo de direção e eu sempre tento avaliar erros e acertos, o tempo todo. Para Bichado precisávamos de tipos bem específicos, com temperamentos e características psicofísicas que pudessem fazer germinar os papéis que Tracy Letts escreveu com tanta riqueza de detalhes, mesmo os menores em extensão. Além disso, como os nossos processos são de investigação do material dramatúrgico e não de mera montagem do texto, preciso sempre de atores disponíveis, abertos a esse tipo de processo, quase obsessivos pelo trabalho de pesquisa e aprofundamento dos personagens”.

A preparadora de atores Inês Aranha conta que, em primeiro lugar, propõe um entrosamento entre o elenco. “Fazemos exercícios específicos para encontrarem o corpo da personagem que estão estudando, as relações entre eles, gestos característicos para cada um, ocupação do corpo no espaço e sua expansão, pesquisamos imagens para investigar a vida ficcional da personagem (ou seja, o que não está escrito no texto, mas que pode ajudar a encontrar essas realidades), o tempo-ritmo de cada personagem, os estados internos e emoções de cada um, etc”, afirma ela.

Em Bichado, esse trabalho foi feito antes mesmo do diretor começar a levantar as cenas. “Depois, com as cenas levantadas, o meu trabalho é ajudar os atores a aprofundar as partituras de ações físicas e seus sentidos lógicos para dar vida à encenação, com o embasamento técnico que foi utilizado na preparação”, diz Inês, informando ter uma excelente sintonia com Zé Henrique de Paula.

12102402A montagem

Em Bichado, Zé Henrique de Paula explica estar flertando com uma linguagem nova, o hiper-realismo. “Enquanto As Troianas tem uma encenação bastante sensorial e a nova montagem de Casa/Cabul será bastante simbólica, Bichado precisa da crueza da realidade física e palpável, da sujeira do motel de beira de estrada, do mau gosto que invade sem pedir licença as vidas das pessoas, da geladeira velha e do box sujo de bolor. Afinal, o mote da peça é uma invasão de insetos que devastam as vidas do casal de protagonistas. Com um cenário único e ensaiando no próprio local de apresentação, podemos investir nesse detalhamento cada vez mais próximo da vida como ela é”, diz o diretor, que conheceu o texto de Bichado há 5 anos.

Cenário, luz e figurino convergem para a sensação máxima da realidade, dentro de uma abordagem estética quase cinematográfica, com eventuais escapes durante as transições de cena. “Essas sim são mais livres e tangenciam o sonho, o devaneio, a alucinação, as viagens provocadas pelo intenso consumo de drogas que acontece durante a peça”, conta Zé Henrique.

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