HITCHCOCK E A INTOLERÂNCIA

imitating-hitchO documento reproduzido nesta página é muito representativo de uma época relativamente recente, que permanece como uma mancha na história dos Estados Unidos. Apesar de sua natureza política, este documento teve implicações na criatividade de um dos maiores diretores do cinema do século, o inglês Alfred Hitchcock. A carreira de Hitchcock nos Estados Unidos foi particularmente bem sucedida, sobretudo para um diretor de origem inglesa, e seus filmes foram geralmente criados à margem de qualquer injunção  política, levando em conta apenas as severas restrições e auto- censura próprias ao período.

Por outro lado, quando a carreira de Hitchcock já estava consolidada, os Estados Unidos atravessaram um período particularmente infeliz quando, no contexto da Guerra Fria, republicanos liderados pelo senador Joseph McCarthy iniciaram uma verdadeira caça às bruxas para identificar os comunistas supostamente infiltrados em todas as instâncias americanas. Para isso foi criado o famigerado Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas e foram interrogados milhares de supostos simpatizantes do comunismo, ou artistas cuja obra poderia conter alusões subreptícias à ideologia que os republicanos baniam.

hitchcockHitchcock não era o principal suspeito, mas também não foi exceção. Na qualidade de membro do sindicato dos diretores de cinema da América, teve que assinar uma declaração sob juramento em que confirmava: “não sou membro e tampouco apoio qualquer organização que crê ou prega a derrubada do governo dos Estados Unidos, por força ou por qualquer método ilegal ou anti-constitucional.”

Este era o temor dos anti-comunistas mais empedernidos, que acreditavam que agentes bem organizados poderiam solapar as sólidas bases da cultura política norte americana e promover um levante nos moldes da Revolução Russa de 1917. A declaração juramentada de Hitchcock é de 13 de outubro de 1950, no período inicial das intermináveis audiências, transmitidas por todo país, que o senador McCarthy promoveu de 1950 a 1956, num clima de verdadeira histeria.

O cinema de Hitchcock traz marcas de sua experiência com o patrulhamento e evoca condenações injustas a que foram submetidos vários artistas que admirava ou com quem mantinha relações de amizade. Há quem considere que seu filme de 1956, O homem errado, com Henry Fonda, que conta a história de um homem acusado injustamente, reflete em parte sua frustração com os desmandos da época do chamado “Macartismo”.

Em todo caso, este documento é um testemunho particularmente eloquente de um período conturbado da história dos Estados Unidos e de um ambiente de paranoia anti-comunista que as gerações mais recentes tem dificuldade em acreditar que existiu. O documento fez parte de uma das maiores coleções de cinema dos Estados Unidos e foi leiloado em 2011, após a morte do colecionador, quando foi adquirido por seu atual detentor.

*Texto retirado integralmente da Revista Piauí

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