CLAUDIA CARDINALE

Mais um exemplo que mostra porquê a Mostra Internacional de Cinema aproxima o filme do público:

claudia_cardinaleNa tela de projeção, uma das primeiras cenas de Claudia Cardinale, do filme Os Eternos Desconhecidos (1958), onde a atriz interpreta uma garota que rejeita os avanços do criminoso Renato Salvatori, batendo a porta no nariz dele. Assistindo à cena, Claudia cai na gargalhada.  “Quando eu comecei a fazer o filme, eu não falava italiano. Fechei a porta de verdade na cara do ator e ele me gritou: ‘Claudia, no cinema a gente só finge’”!

Claudia foi a estrela de um encontro aberto ao público com o jornalista Rubens Ewald Filho no Teatro da FAAP. Ela está nas telas da Mostra com O Gebo e a Sombra (2012), novo filme de Manoel de Oliveira, e também com uma cópia restaurada do clássico Era uma Vez no Oeste, de Sérgio Leone. A estrela relembrou a carreira e seus filmes de maior repercussão internacional, entre eles A Garota com a Valise (1961, 25ª Mostra), de Valerio Zurlini, diretor de quem guarda memórias boas e ruins.

“Zurlini era um grande diretor, pra mim um mestre. Depois desse filme, eu virei namorada de todos os italianos. Nós éramos muito ligados. O mais terrível veio depois. Um dia, Valerio me ligou pra ir à sua casa. Quando cheguei lá, a casa estava completamente vazia, sem quadros nem móveis. Ele estava lá e dizia: ‘Eu te amo, eu te amo’. Dois dias depois, abri o jornal. Ele queria se despedir de mim antes de se matar. Era muito infeliz na vida com as mulheres”.

claudia-cardinale-between-scenes-of-circus-world

Depois vieram (1963), de Federico Fellini, e O Leopardo (1963, 35ª Mostra), de Luchino Visconti. “foi um filme rodado com improvisação. Fellini nunca me pediu pra falar números em vez das falas. Para os outros, sim. Pra mim, ele me dizia o que eu tinha que falar, e eu repetia. Daí vinha o Marcello e fazia os seus textos a partir das minhas perguntas. Mas o meu texto era o texto do filme mesmo”. Uma experiência diferente do épico de Visconti, diretor que cuidava dos diálogos como no teatro. “Foi um mês de filmagem para aquele baile dentro do palácio, num calor de 40 graus, e com todos aqueles figurantes que eram mesmo nobres do local. Fora eu vestindo todo aquele figurino do Piero Tosi que era extraordinário. Foi o filme que me fez famosa no mundo inteiro”.

Sobre sua fase em Hollywood, em produções como A Pantera Cor-de-Rosa (1964) e Os Profissionais (1966), Claudia tem boas lembranças, mas ao final sempre retornava à Europa. “Convidavam-me muito, e eu ia, mas sempre voltava pra casa. Também lá tinha outro esquema. Para eu sair, tinha sempre motorista, tinha sempre gente em volta. Se eu saísse, a polícia me parava sempre. Não tinha liberdade”.

De volta à Itália, a atriz fez mais um papel marcante em Era Uma Vez no Oeste (1968). “Sergio Leone era um diretor incrível. Quando filmava, tinha esse modo de colocar a câmera sobre seus olhos, seu rosto, sobre sua pele, sobre tudo”. Várias memórias dos bastidores foram lembradas por Claudia. “Haviam começado a primeira cena de amor, e o Henry Fonda nunca tinha feito uma cena de amor. A mulher dele ficou sentada ao lado da câmera o tempo todo”.

Claudia-Cardinale-980X400-JMMas o seu trabalho mais emocionante curiosamente veio com a caótica produção de Fitzcarraldo (1982), de Werner Herzog. “Ele era louco, mas eu gosto dos loucos. Já Klaus Kinski não me dava medo. Era um louco de ataques, mas não tinha medo dele. Havíamos começado com o Jason Robards, mas depois de algumas semanas recomeçamos tudo com o Klaus Kinski. Como Mick Jagger tinha uma turnê internacional, também não pôde fazer o papel que estava previsto. Aquilo foi filmado de forma verdadeira. Vieram vários técnicos de Los Angeles para fazer um documentário porque ninguém acreditava que era possível subir o barco pelas montanhas. Adoro a aventura. A aventura mais bela da minha vida foi Fitzcarraldo”.

Perguntada sobre sua mais nova fase de sua carreira, incluindo o novo longa de Manoel de Oliveira, Claudia explicou como escolhe seus projetos. “Primeiro leio o roteiro, que é o mais importante, e depois encontro com os diretores. Ultimamente, colaborei com jovens diretores em seus primeiros filmes, porque são jovens, contam com dificuldades e eu gosto de ajudá-los”. A atriz concluiu se expressando o que sentia com o passar de sua carreira. “Não dá pra gente parar o tempo. Nunca fiz lifting nem nada. Devo aceitar o tempo que passa”.

Texto retirado do site da Mostra

Anúncios

2 respostas em “CLAUDIA CARDINALE

  1. Esqueceram de mencionar Vagas Estrelas da Ursa, uma das obras-primas do mestre Luchino Visconti ( O Leopardo). Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza,esse clássico italiano apresenta Claudia Cardinale no auge de sua beleza.Ao som da melancólica música de Cesar Franck,Visconti realiza um drama fascinante sobre a memória, a desagregação familiar, a decadência e o desejo. Um filme magnífico para ver e rever muitas vezes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s