COSMÓPOLIS

cosmopolis_wallpaper_1_1024x768pxTumulto, caos em sua forma mais expressiva, os diálogos ácidos como uma bala de revólver, a questão física onde nada se encaixa, o silêncio, o gore… Sim, esses são os ingredientes de Cosmópolis, David Cronemberg mostra todos seus estilos e, claro, mais uma vez para incomodar o convencionalismo do mundo e do próprio cinema.

No filme, a cidade de Nova York se encontra em uma desordem, a era do capitalismo está chegando ao fim. Uma visita do presidente dos Estados Unidos paralisa Manhattan e Eric Packer (Robert Pattinson), o menino de ouro do mundo financeiro, tenta chegar ao outro lado da cidade para cortar o cabelo. Durante o dia, ele observa a loucura e percebe, impotente, o colapso do seu império.

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O protagonista entra em um buraco negro em um sistema que ele é mais do que especialista, assim como o próprio Estados Unidos na última crise financeira que degolou bancos de extrema força e tradição na economia. Sua jornada dentro da limusine vira uma peregrinação, o personagem questiona toda as ferramentas e engrenagens que o sustentaram durante anos. Uma deficiência em seu próprio “cosmos” (do grego kosmos, que significa ordem).

Não existe uma falência apenas financeira, a falência moral é maior, atinge mais forte, traz uma iminência mortal que está prestes a se manifestar e pode vir de qualquer lado. Os check-ups diários do personagem indicam que essa ameaça está próxima, sua próstata assimétrica é uma metáfora para os desvios da vida, mesmo cercada por todas as regularidades dos cálculos matemáticos.

Packer se tranca na limusine, uma proteção de uma bolha. Vê de fora o caos instaurado na cidade por conta da visita do presidente, o cortejo do corpo de um rapper e uma onda de protestos anarquistas que tem como alvo os alfas do capitalismo. Literalmente, “Um rato se tornou a unidade monetária”, como já diria a citação do poeta polônes Zbigniew Herbert (1924-1998). “O tempo antigamente fazia dinheiro. Hoje, o dinheiro faz o tempo. O dinheiro está conversando consigo mesmo”.

eric_gunEric está inerte, por trás de sua aparências existe um vazio que se reflete em todas suas interações sociais. A relação com Elise (Sarah Godon) é fria que nos faz questionar se existe um casamento entre os dois, mesmo eles se declarando como marido e mulher.

Os diálogos são cortantes, a transformação típica dos filmes de Cronemberg acontecem tanta na forma psicológica, tanto na questão física, principalmente por meio da violência. Apesar do tom agressivo, Packer tem como missão contar o cabelo no local que frequentava desde sua infância. Será esperança? Uma tentativa de recuperar algo que tenha esquecido com tempo?

O personagem de Robert Pattinson começa com um terno bem aliado, vai se desconfigurando e termina com trajes bem à vontade em seu purgatório. Cosmópolis é uma leitura de Cronemberg dos tempos atuais, muita ação engajada nessa falta de ação, um xeque-mate na sociedade. COS_D028-05431.NEF

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Uma resposta em “COSMÓPOLIS

  1. Tive o prazer de assistir Cosmopolis três vezes no cinema e, em cada visita ao mundo onde Cronenberg não poupa a contemporaneidade, consegui captar diferentes visões, cada uma delas mostrando fatos tão óbvios mas que são estupidamente trancados no moralismo. Grande filme, grande diretor, grande livro, e, com certeza, grande futuro dentro de 109 minutos.

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