POR TERRAS LUSITANAS

TABU_5tumblr_mcrn0aUprl1rzk6y2o1_500Nome forte e incisivo que dá título ao um dos mais belos filmes que desembarcou por aqui das terras lusitanas recentemente. Em preto e branco, Tabu (de Miguel Gomes) é uma reflexão sobre a vida e o cinema ao mesmo tempo, o passado ganha uma releitura no presente em ambos os sentidos.

Uma idosa temperamental, sua empregada de Cabo verde e uma vizinha dedicada a causas sociais partilham o andar de um prédio em Lisboa. A senhora Aurora está em seus últimos dias de vida, diz palavras desconexas. Por um flashback, desenhado pela voz de um até então desconhecido Senhor Ventura, todos começam a conhecer uma história de amor e crime passada na África.

Aurora se encontra em sua juventude plena, inteligente, inquieta, casada e prestes a ter seu primeiro filho. As aparências deixaria a personagem realizada em todos os âmbitos, porém ela sente atraída e apaixonada por um forasteiro chamado Ventura. Um casal que tem como símbolo um crocodilo.

Narração/ Aquele Querido Mês de Agostotabu miguel gomesO cinema de Miguel Gomes quebra os padrões narrativos. Sai de um prólogo, vai para os tempos atuais e pula para o passado. Uma característica não só de Tabu, mas também de Aquele Querido Mês de Agosto. Uma produção que pode ser acompanhada por vários lados. image_18

Entre as festividades de um mês devido às férias, o filme acompanha as relações afetivas entre pai, filha e um primo, todos músicos em uma banda de bailes que se apresentam em vários locais no interior de Portugal. Ou pode ser uma equipe fazendo um longa/documentário sobre essas celebrações. Um filme dentro do filme? Não importa, quando a última cena acaba, fica a sensação de um folga, fim de semana ou férias que vai embora, saudosista, é preciso voltar para o cotidiano.

Homenagem ao Cinema

Tabu se transforma em um filme mudo na segunda parte com toda a história da juventude de Aurora. A narração de Ventura funciona como letreiros que aparecem de vez em quando para trazer uma informação ao espectador. O trunfo são as imagens, o trabalho de fotografia primoroso, valorizando a natureza, as paisagens e ações que se desenrolam entre os personagens. Assim como o próprio Tabu, de 1931.

1931-tabuO filme de Miguel Gomes pega emprestado o título de uma das obras primas de Murnau. A trama também retrata o amor impossível entre dois jovens nativos, aonde a garota Reri é decretada por lei tribal como intocável a todos os homens. O longa tem cenas antológicas ao mostrar a pureza de uma sociedade primitiva, cenas que estão as melhores da história da sétima arte.

SunriseA escolha de Aurora como protagonista não é por acaso, esse é o nome de outro trabalho do diretor alemão de 1927. Nesse clássico, Murnau conta a história de um fazendeiro que tenta matar a própria esposa após ser convencido pela amante. Mais uma história que envolve amores entre encontros e desencontros.

Além das citações, o diretor português caminha com as próprias pernas ao criar um trabalho com roteiro e direção que foge do habitual, corajoso. Um novo que não esquece de suas raízes na hora de realizar o seu cinema.

Poesia

tabu-3Quem imaginaria que as conversas sem pé nem cabeça da velha Aurora esconderia um passado tão rico de fatos e causos impressionantes? Uma senhora que mora no apartamento ao lado. Uma poesia que está no texto e nas sequências, além de explorar os efeitos da colonização portuguesa que ainda se refletem nos tempos contemporâneos.

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