ELEFANTE BLANCO

23Elefante_blanco-134405258-largeO cinema argentino é um dos melhores que se tem notícia, sempre com produções questionadoras, saindo da ingenuidade, do “didatismo” e do viés panfletário que muitos longas investem no momento de retratar um filme com questões sociais. Elefante Branco, de Pablo Trapero, tem um leque de qualidades que o deixa com um resultado plausível, consistente e verdadeiro.

Na trama, o padre Julián (Ricardo Darín) e o padre Nicolás (Jérémie Renier) trabalham ajudando os menos favorecidos na favela de Villa Virgen, periferia de Buenos Aires. O local é um antro de violência e miséria, sofre com a polícia corrupta e os próprios sacerdotes da Igreja nada fazem para mudar essa realidade. A dupla conta com o apoio da assiste social Luciana (Martina Gusman).

O título do longa vem de um edifício gigantesco em Buenos Aires projetado nos anos 1920 para ser o maior hospital da América Latina, mas que se tornou nos últimos 30 anos – como outros conjuntos de prédios da cidade – uma imensa ocupação habitacional, uma favela. Um local que sofreu na era peronista, na ditadura e continua seu calvário nos tempos atuais.

O padre Nicolás é diferente, sempre engajado em lutas sociais como na Amazônia peruana. Fuma um cigarro, aprecia a bebida alcóolica e não deixa de lado um olhar para as mulheres. Julián atua como um mentor. Elefante Branco é cruel, visceral, mostra o sangue jorrando, os tiros disparados a esmo. Ao mesmo tempo, Trapero não esquece de tocar na sensibilidade entre os personagens, nas raízes que eles firmaram durante o processo de levar a utopia nessa favela devastada.

foto-elefante-blanco-18-065Os planos sequências são bem trabalhados e dão dimensão de magnitude da região em que a história se desenha. O diretor entrega pistas que se juntam e atraem o sentido no decorrer das cenas. Uma das maiores qualidades, tudo se baseia na imagem, não precisa ficar inserindo diálogos ralos apenas para posicionar a plateia. Às vezes, os filmes menosprezam quem o assiste.

O embate desta obra portenha retrata todas as camadas, seja religiosa, econômica ou social, uma maneira de tentar abranger a complexidade da trama. A burocracia, a falta de vontade de investimentos dos órgãos responsáveis, o crescimento desordenado e a criminalidade são os ingredientes enfrentados pelos protagonistas. Como se fosse uma equação cheia de detalhes e impossível de resolver. Essa é a sensação da impotência da pobreza do terceiro mundo.

elefante-blanco-pelicula-1A produção é uma homenagem ao Padre Carlos Mugica, um sacerdote que lutava contra a intolerância e por mais justiça em questões sociais na Argentina durante as décadas de 60 e 70. Até hoje, seu assassinato em 1973 não foi esclarecido. Elefante Branco tem essa inquietude, é mobilizador, político sem fazer política.

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