RESTROSPECTIVA MOSTRA I

Obra-prima do cinema japonês, um filme italiano, um iraniano no Japão e um clássico de Hollywood.

rarossonhosRAROS SONHOS FLUTUANTES

Em 2008, David Fincher trouxe para as telas O Curioso Caso de Benjamin Button. O protagonista, interpretado por Brad Pitt, nasceu sob circunstâncias incomuns. Ele nasce com oitenta e poucos anos e rejuvenesce a cada dia que passa. O longa tem uma bela fotografia, uma boa direção, além de trazer à tona uma jornada de um homem que tem seus amores, perdas, sua vida e morte. O personagem vem de trás pra frente, um contratempo na correria em que vivem todos os seres humanos. Apesar das qualidades, o filme se tornou mais frio quando tive a oportunidade de ver a obra prima Raros Sonhos Flutuantes (1990), de Eizo Sugawa.

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O trabalho desse diretor japonês atua praticamente com a mesma temática de Fincher, no entanto o grau de profundidade da obra é bem maior. Na trama, Mutsuko não nasce velha, ela tem uma vida normal com seus 70 anos, contudo começa a rejuvenescer de repente, na verdade após de um evento traumático: o divórcio. Essa síndrome é como se fosse uma forma dessa mulher recuperar toda a vitalidade perdida, recomeçar do zero, ter uma nova oportunidade na vida.

Shuji a conhece internada no hospital. Em um quarto dividido por uma tela, sem poder mover-se de suas camas, os dois conversam sobre poesia, criando um vínculo romântico somente as palavras. Ele se apaixona por uma mulher sem ao menos conhecer o rosto, a relação é verdadeira.

Shuji ama Mutsuko sexagenária, na idade adulta, na adolescência e na infância. Eizo Sugawa sai do conformismo, choca, investe no instinto, uma característica que o deixou exilado na área cinematográfica. Raros Sonhos Flutuantes é um filme novo, porém como boa parte da obra desse cineasta, se encontra em extinção de cópias pelo mundo, inclusive no Japão. Parabéns Mostra Internacional de São Paulo em promover esse resgate em uma sessão de homenagem ao grandioso Carlão Reichenbach. A cena final de despedida entre os personagens é simplesmente emblemática, marcante em todos os sentidos. Um rosto que desaparece no meio da multidão e nunca mais vai aparecer.

Bela-que-DormeA BELA QUE DORME

bella-addormentata-4-clip-e-un-poster-del-film-di-marco-bellocchio-2O novo filme de Marco Bellocchio tem como questão central a eutanásia, mas eu diria que o cineasta vai mais longe, faz uma reflexão sobre a vida. Um senador vive um dilema de político e de sua própria consciência. Sua filha Maria é uma ativista de um movimento pró-vida. Ao lado de seu irmão, Roberto é um militante laico, um opositor por quem Maria se apaixona. Uma atriz procura por sua fé e um milagre para salvar a filha, que está em coma irreversível há anos. Rossa está desesperada, quer morrer, mas um jovem médico chamado Pallido opõe-se ao seu suicídio.

Esse mosaico de histórias é permeado por uma história verídica: o famoso e controverso caso de Eluana Englaro na Itália. A Bela que Dorme retrata o lado político, religioso e social de um assunto polêmico. Até onde vai liberdade de acabar com avida do outro ou com a própria vida?

“Dirigindo-se ao direito, lutando dentro das instituições e com elas, pedindo que a sentença da Suprema Corte fosse respeitada, fez com que, por outro lado, a dor por uma filha em coma há 17 anos deixasse de ser uma dor particular e se tornasse também minha, nossa dor. Fez com que se descobrisse uma das maravilhas esquecidas do princípio democrático, a empatia. Quando a dor de um é a dor de todos. E, assim, o direito de um torna-se direito de todos.” Roberto Saviano em A Beleza e o Inferno.

20113740UM ALGUÉM APAIXONADO

Abbas Kiarostami é um diretor que não entrega tudo de mão beijada, seus filmes vão em um ritmo calmo até chegar uma aceleração absurda com um ritmo frenético em uma trama que mostra que nem tudo é o que parece.

Em Um Alguém Apaixonado, o senhor Takashi (Tadashi Okuno) e a jovem Akiko (Rin Takanashi)  se encontram em Tóquio. Além de ser universitária, ela é um acompanhante de luxo. Já o sexagenário professor e tradutor somente deseja um companhia para afastar a solidão do seu dia a dia.

O título sugere um filme mais calmo, uma reflexão sobre romances. Todavia Kiarostami vai em direção contrária. Esse “alguém apaixonado” pede para a namorada contar os azulejos do banheiro de um local para verificar se ela fala a verdade. Uma conversa por telefone despretensiosa que reflete no ápice da obra, loucura e insanidade correndo de forma desesperada nas escadarias. É assim o longa inteiro, que é coeso, que não precisa colocar/nem tirar nada em cena; tudo está ali por um motivo, uma razão, mesmo que seja de forma simples.

Like Someone in Love (1)-thumb-630xauto-34323Um Alguém Apaixonado não tem fim, nem começo. Ao subir os créditos, nada permanece no lugar dentro de sua cabeça, mais perguntas surgem. O filme continua na mente, isso é Abbas Kiarostami.

jawsTUBARÃO

Um terrível ataque a banhistas é o sinal de que a praia da pequena cidade de Amity virou refeitório de um gigantesco tubarão branco, que começa a se alimentar dos turistas. Embora o prefeito queira esconder os fatos da mídia, o xerife local (Roy Scheider) pede ajuda a um ictiologista (Richard Dreyfuss) e a um pescador veterano (Robert Shaw) para caçar o animal.

O primeiro filme criou essa cultura de blockbuster, de várias salas exibindo o mesmo longa, além do lucro imediato que os estúdios almejam a cada lançamento. Suspense elevado até a décima potência com a música de John Williams. Steven Spielberg cria uma tensão não mostrando nada, tanto que o tubarão aparece definitivamente em mais de 40 minutos de filme. Com certeza, Tubarão criou escolas e influenciou com sua receita. Um trabalho que tinha tudo para dar errado, orçamentos exorbitantes e prazos estourados, além dos tubarões mecânicos que afundaram e deram o maior problema durante as filmagens.

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