CIDADANIA MÚLTIPLA

kill-bill-vol.1-5Texto: Renato Fernandes
Edição: Luiza Wolf

http://www.barulhonoset.com.br/especial/44-estreias-especial/114-cidadania-multipla.html?showall=1

Tiroteios ao estilo “faroeste” italiano, golpes de artes marciais vindas do Japão, terror ao estilo Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick e dança de ‘Aristogatas’. É difícil pensar que tudo isso pode estar conectado. Mas está… e o culpado é Quentin Tarantino.

Além de dirigir, ele escreve seus próprios filmes e capricha no sangue derramado – encantando alguns, causando revolta em outros. Mas Tarantino parece não ligar: dá mesmo um “tapa na cara da sociedade” e cria o que bem entende em seus filmes, chegando até a desconstruir e mudar fatos históricos. E, assim, nos faz perceber que o cinema não impõe limites, nem ordem, e permite que tudo aconteça.

Há quem não entenda isso e até diga que os filmes de Quentin Tarantino não têm história. Bem, cada um com sua opinião. Mas ninguém pode questionar o fato de que ele tem uma enorme bagagem cinematográfica. É que, antes de ser um diretor com a projeção atual, trabalhou em uma locadora de vídeos. Ali, assistiu a filmes de todos os cantos, moldou um verdadeiro leque de influências e acabou por criar seu próprio estilo, ainda que se inspire e faça homenagens e referências a outros longas-metragens. Suas inspirações pelo cinema não estão apenas em Django Livre, que estreia hoje (leia a crítica aqui), mas foram incorporadas em toda sua carreira.

Django

Viajamos pela filmografia de Tarantino, de trás para frente, e caçamos homenagens e referências a outros clássicos do cinema mundial. E sugerimos que você faça o mesmo: leia a matéria e nos diga se faltou alguma coisa. Se você está um pouco por fora das referências, não se preocupe: até domingo (20), o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) exibe uma mostra com filmes que influenciaram a carreira de Tarantino (veja a programação aqui). Ah, você também está “cru” com a filmografia do diretor? Também não é desculpa! O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a partir do dia 20 de fevereiro, e o Cinusp, a partir do dia 25 do mesmo mês, abrigam a mostra Mondo Tarantino e exibem toda a filmografia do cineasta, além de suas influências de sétima arte e episódios de séries de TV que foram ao ar pelas mãos do diretor.

Com a euforia da estreia de Django Livre, Quentin Tarantino conquistou a cidade. Deixe que ele conquiste você também.  😉

Quentin Tarantino apresenta a sua versão do período de escravatura nos Estados Unidos em Django Livre, que estreia hoje. O filme relata a história de Django, um escravo libertado pelo caçador de recompensas Dr. King Schultz. Eles decidem partir em uma missão para resgatar a mulher de Django, escrava em uma plantação, comandada com pulso firme por Calvin Candie. O filme já causou muita polêmica pelos Estados Unidos por usar muito a palavra ‘nigger’, termo altamente ofensivo para se referir aos negros – mas que, na época da escravidão, era usado sem pudor algum.

Tarantino representa lindamente a escravidão por meio do “faroeste spaghetti”. O próprio título do filme foi emprestado de Django (1966), estrelado por Franco Nero, que faz uma aparição especial no novo longa. O clássico ‘Butch Cassidy’ (1969) é lembrado em uma cena de emboscada.

Stanley Kubrick também aparece por ali: Dr. King Schultz é perturbado por lembranças violentas ao ouvir uma sinfonia de Beethoven, mesma reação de Alex, do clássico ‘Laranja Mecânica’ (1971). (Luiza Wolf)Bastardos InglóriosA música de Ennio Morricone é um dos principais atrativos de Bastados Inglórios (2009). Além da colaboração do célebre compositor do faroeste spaghetti, o grupo de americanos judeus que exterminam soldados do führer tem como líder Aldo Raine (Brad Pitt), que ganhou o apelido “Apache”. Com seu sotaque caipira, o personagem vive como se estivesse no Velho Oeste perseguindo uma diligência. Ao invés de cowboys, seu alvo são os nazistas. A cena final com o rosto de Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) na tela de cinema é similar ao ápice do clássico de Alfred Hitchcock: ‘Rebecca, a Mulher Inesquecível’ (1940).02

Em À Prova de Morte (2007), o dublê temperamental Stuntman Mike (Kurt Russell) usa seu carro indestrutível para perseguir mulheres. A obsessão pelas batidas do protagonista relembra a neura de ‘Crash – Estranhos Prazeres’ (1996) de David Cronemberg, onde um grupo tinha um fetiche por acidentes automobilísticos que impulsionavam a sexualidade. Outra referência é ‘Vanishing Point’ (1971), de Richard C. Sarafian, traduzido no Brasil como ‘Corrida Contra o Destino’: as perseguições de Kowalski (Barry Newman) no cenário desértico foram o ponto de partida para o personagem de Kurt Russell.Sin CityQuentin Tarantino atuou como diretor convidado em Sin City – A Cidade do Pecado (2005), em parceria com Robert Rodriguez e Frank Miller. Mesmo o longa não sendo um de seus projetos, a trama está recheada de loucuras e situações insanas, características primordiais da obra de Miller que agradaram o diretor cinéfilo.Kill BillNa jornada de vingança da Noiva (Uma Thurman) nos dois volumes de Kill Bill (2003/2004), Tarantino transborda de influências do faroeste e do cinema japonês. Os close-ups e o silêncio na hora de um duelo iminente revelam a paixão do faroeste spaghetti à lá Sergio Leone. O embate entre os personagens é típico de ‘Três Homens em Conflito’ (1966). Tarantino ainda insere trechos da trilha sonora de ‘Era Uma Vez no Oeste’ (1968) para enfatizar sua paixão pelo bang-bang. As cenas no deserto americano se inspiram nos enquadramentos de John Ford, como no clássico ‘Rastros de Ódio’ (1956). A personagem de Uma Thurman até se veste de amarelo, como Bruce Lee em ‘Jogo da Morte’ (1978), de Robert Clouse. Já a bela sequência do duelo da protagonista com O-Ren Ishii (Lucy Liu) remete a obras como ‘Harakiri’ (1962), de Masaki Kobayashi. Assim, como ‘Yojimbo’ (1961), de Akira Kurosawa, Tarantino transforma o universo de cowboys e samurais em um filme só com ‘Kill Bill’.Jackie Brown Jackie Brown (1997) se espelha no mundo black de ‘Coffy’ (1973) e ‘Foxy Brown’ (1974), ambos de Jack Hill e protagonizados por Pam Grier, que também é a personagem principal do longa de Tarantino. O diretor faz uma homenagem aos filmes setentistas, tanto com a trilha sonora como na aparência da atriz. Ela praticamente revive os papeis que a marcaram no cinema de Jack Hill, mulheres com fortes motivações pessoais e que fazem de tudo para se virar na vida.39968-four_roomsEm Grand Hotel (1995), ele cuida da direção de um dos quatro curtas inseridos nesse filme. Em seu episódio, não poderia faltar as características que o marcaram. Ele atua como um diretor que está hospedado em um hotel e promove um jogo envolvendo uma espécie de roleta russa com armas e bebidas. Mais uma vez, Tim Roth se envolve com Tarantino, com quem ele já havia atuado nos célebres ‘Pulp Fiction – Tempo de Violência’ e ‘Cães de Aluguel’.Pulp FictionPulp Fiction – Tempo de Violência (1994) está em boa parte das listas dos melhores filmes de todos os tempos. Em uma narrativa circular, o diretor retrata a sociedade insana, uma verdadeira ancestralidade expurgada a cada tomada.  A obra investe em várias tramas que se interligam como um todo.

Tarantino faz referência a diversos filmes (como ‘Águias Americanas’, de 1943), a maioria deles da década de 1940 – e, portanto, ‘Pulp Fiction’ carrega situações típicas do cinema noir, que seguia o estilo policial e dominou a época “pós-depressão”: um corpo que deve desaparecer, um boxeador pago para perder e um encontro que termina em desastre. Mas o diretor não se deixou prender à apenas esta década. A cena em que Marsellus atravessa a rua na frente do carro de Butch (Bruce Willis), reconhecendo-o, lembra a cena em que o chefe de Marion Crane a vê em Psicose (1950), de Alfred Hitchcock. Já a sequência de dança entre Vincent Vega e Mia Wallace no Jack Rabbit Slim’s, a primeira vista, parece a performance de John Travolta como Tony Manero em Os Embalos de Sábado à Noite(1977), de John Badham. Todavia, o diretor se inspira em uma cena de Bande à Part (1964), de Jean-Luc Godard, cineasta francês reconhecido por suas digressões e quebra na ordem cronológica dos fatos.

Recentemente, Tarantino afirmou que a animação Aristogatas (1970), da Disney, também serviu de inspiração para a coreografia. E ele até dançou para demonstrar:

‘Pulp Fiction – Tempo de Violência’ arrebatou a Palma de Ouro em Cannes, além do Oscar e Globo de Ouro de melhor roteiro original, escrito por Tarantino.Cães de AluguelCães de Aluguel (1992) marcou a estreia propriamente dita de Quentin Tarantino nas telonas. É referência do cinema independente e abriu as portas do mundo para o diretor, inclusive foi um dos destaques da 16ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Na trama, seis ladrões são contratados para realizar um roubo, contudo o plano sai errado devido a uma traição.

Umas das maiores fontes vem do cinema asiático, especificamente de Hong Kong, com ‘City on Fire’ (1987), de Ringo Lam. Uma história recheada de gangues, joias, traições, tiros e ultraviolência como a de ‘Laranja Mecânica’ (1971). Porém, a maior influência de Stanley Kubrick é com ‘O Grande Golpe’ (1965), longa que também permeia assaltos, cobiça e muito dinheiro.

Tarantino é um cinéfilo desenfreado, absorve o cinema de todo o lugar. Antes do diretor consagrado, ele é apenas um cara que aprecia curtir um bom filme.

– Museu da Imagem e do Som (MIS). Auditório (173 lug.). Av. Europa, 158, Jd. Europa, São Paulo,   (11) 2117-4777. R$ 4. Até 20/1.

– Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo (CCBB-SP). Cinema (70 lug.). Rua Álvares Penteado, 112, Centro, São Paulo, (11) 3113-3651/3652. R$ 4. De 20/02 a 17/3.

– Cinusp. Rua do Anfiteatro 18, Colméia – Favo 04, Cidade Universitária, São Paulo, (11) 3091-3540. R$ 4. De 25/02 a 15/7.

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