DJANGO UNCHAINED

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Quentin Tarantino está na ativa. Com um lançamento, digno de elogios, diga-se de passagem. Django Unchained tem todas as particularidades que o consagrou, as referências estão todas escancaradas para todo mundo ver. Uma união entre o thrash e o erudito.

07[2]Em sua filmografia, o diretor sempre namorou o faroeste. Está no duelo final de Cães de Aluguel (uma triangulação a la Sergio Leone em Era Uma Vez no Oeste); na justiceira de Kill Bill que duela com espadas com se fosse sacar uma arma do coldre e viaja por paisagens do gênero; no sotaque caipira de Aldo Raine (Brad Pitt) em Bastardos Inglórios, a música de Ennio Morricone… Além disso, ele esteve em cena em um longa do gênero: Sukiyaki Western Django (2007), de Takashi Miike. Onde o Velho Oeste é levado para a terra do sol nascente. Agora, Tarantino finalmente lança seu Western Spaghetti.

Na trama, Django (Jamie Foxx) é um escravo liberto que, sob a tutela de um caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz), parte para encontrar e libertar a sua esposa Broomhilda (Kerry Williams) do fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). O filme tem caráter revisionista, pois um negro é protagonista de uma obra que se passa no faroeste. Uma nova forma de tratar o assunto, assim como o papel dos índios e da própria conquista do Oeste, como já aconteceu em vários filmes.

O humor negro é uma das características vitais da obra tarantinesca. Klu-Klux-Klan vira obra de uma paródia como o dente gigante balançando na carroça do dentista Schultz. Django tem liberdades que nenhum escravo pensou em conseguir algum dia. pode entrar em um saloon para uma cerveja, escolher as próprias roupas, montar a cavalo, situações corriqueiras que geram olhares furiosos ou inacreditáveis das pessoas ao seu redor. Dessa vez, o herói não é um cowboy, um escravo vira o gatilho mais rápido do oeste. Foxx usa até óculos escuros, algo impensável para a época (trama se passa em um período anterior à guerra civil americana: 1861 – 1865). o diretor mais uma vez reescreve a história como fez em bastardos inglórios, utiliza todo o poder do cinema para criar a sua própria versão da vida.

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CINEFILIA

As referências cinematográficas de Tarantino explodem na tela. Além da forte influência de Sergio Leone, uma das maiores inspirações vem de Sérgio Corbucci, que inclusive lançou Django (1966). Franco Nero era o protagonista e faz uma participação no Django versão 2012. Vale frisar que exploraremos mais esse assunto em outro post. 

Mandingo (1975), de Richard Fleischer trata da questão da luta entre os próprios escravos, algo que ocorre no filme americano e introduz a entrada de Calvin Candie (Leonardo Dicaprio), o dono de “Candyland”, uma plantação famosa pelo treinador ace woody, que treina os escravos locais para a luta. Schultz tem uma arma que é acionada por um dispositivo no braço, uma cópia literalmente de Travis Bickle em Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese. O clássico Butch Cassidy (1969) é lembrado em uma cena de emboscada. Em uma cena, Dr. King Schultz é perturbado por lembranças violentas ao ouvir uma sinfonia de Beethoven, mesma reação de Alex DeLarge, de Laranja Mecânica (1971), obra de Stanley Kubrick.

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Os corpos dos personagens parecem que são feitos apenas de sangue, não param de jorrar a cada tiro, algo típico das espadas da noiva em Kill Bill. O espanto dos personagens com a dupla Schultz e Django é o mesmo gerado por Toshiro Mifune na chegada em um vilarejo em Yojimbo (1961), de Akira Kurosawa. A trilha sonora é mesclada com músicas de clássicos de faroeste e composições atuais. Mais uma vez, Tarantino mostrou que sabe escolher os sons certos para seguir sua história e seus personagens.

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Jamie Foxx está bem para o papel de protagonista, muito bem amparado por Christoph Waltz. Um sujeito que fala que é dentista, mas seu negócio é viver como um caçador de recompensas. Capaz de sair das situações mais embaraçosas apenas com o dom da retórica. Um personagem de destaque semelhante a Hans Landa, interpretado pelo próprio ator em Bastardos Inglórios.

E Leonardo DiCaprio? um ator que coleciona excelentes trabalhos com grandes cineastas. Dar vida a Calvin Candie é mais um acerto em sua carreira. um homem que tem sempre um sorriso no rosto, contudo impossível de disfarçar a loucura por trás dessa máscara. ele só quer ver o “circo pegar fogo” ao promover luta entre escravos e defender uma teoria de submissão dos “niggers” que beira ao nazismo. O maior embate em Django não se origina das armas e sim do diálogo entre Schultz e Candie. Ambos têm a habilidade de arquitetar as palavras, um cinismo a cada gesto que oculta a disputa entre os dois.

012Samuel L. Jackson interpreta o escravo de confiança de Candi. Um negro defensor da submissão aos níveis mais extremos. Um dos maiores trunfos dessa produção, o ator desempenha um trabalho magnífico ao lado de Tarantino, uma parceria que já dura cinco filmes. Ou seja, um elenco mais do que equilibrado.

Django Unchained tem sido alvo de polêmicas sobre racismo. Nigger é usado constantemente no longa, algo que gerou protestos e desagradou uma pequena minoria. A história se passa na escravidão, é preciso ter coerência, os escravos eram tratados assim. para contar essa trama no cinema, procurou-se desenvolver um roteiro original que exprimisse a verdade. Aí está, uma maneira de relembrar a insanidade do passado para que não aconteça no futuro. Django é livre, assim como o cinema de Quentin Tarantino.

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