THE MASTER

the-masterO negócio é umcinema autoral por excelência. Paul Thomas Anderson adquiriu sua habilidade como diretor fora das escolas, assistiu vários filmes e garantiu um vasto conhecimento e repertório cinematográfico. “Um meio de se escrever tão maleável e sutil quanto à linguagem escrita”, foi assim que Alexandre Astruc descreveu o termo Cinema de Autor, em 1948. Características que se aplicam ao cineasta americano, suas obras já tem uma assinatura própria, uma marca registrada no desenvolvimento psicológico entre seus personagens. 03Esses pilares sustentam seu mais novo lançamento: O Mestre. Na trama, ao término da Segunda Guerra Mundial, o marinheiro Freddie Quell (Joaquin Phoenix) tenta reconstruir sua vida. Traumatizado pelas experiências em combate, ele sofre com ataques de ansiedade e violência, e não consegue controlar seus impulsos sexuais. No outro extremo está Lancaster Dodd (Phillip Seymour Hoffman), um cara carismático e líder de uma organização religiosa conhecida como A Causa. Esse grupo defende a ideia de vidas passadas, cura espiritual e controle de si mesmo e até o intermédio de extraterrestres. O personagem de Dodd é espelhada em L. Ron Hubbard, o criador da Cientologia, crença que tem como adeptos Tom Cruise, John Travolta, entre outros.08Freddie é um personagem sem rumo, a esmo, não tem um norte. Somente se encontra na hora de preparar uma bebida quase suicida que ingere como se fosse água ou quando pode expurgar seus impulsos sexuais. O personagem se assemelha até ao próprio Meursault, em O Estrangeiro, de Albert Camus, um homem nu e cru perante a sociedade que não faz parte do jogo social:

Quando, um dia, o guarda me disse que eu estava lá há cinco meses, acreditei, mas não compreendi. Para mim, era sempre o mesmo dia, que se desenrolava na minha cela, e era sempre a mesma tarefa que eu perseguia sem cessar. Nesse dia, depois de o guarda ter saído, olhei-me na minha bacia de ferro. Pareceu-me que minha imagem ficava séria, mesmo quando tentava sorrir para ela. Agitei-a diante de mim. Sorri, e ela conservou o mesmo ar severo e triste. O dia acabava e era a hora de que não quero falar, a hora sem nome, em que os ruídos da noite subiam de todos os andares da prisão, num cortejo de silêncio. Aproximei-me da janela e, à última luz, contemplei uma vez mais a minha imagem. Continuava séria, e que há de espantoso nisso, se nesse instante eu também estava sério. Mas ao mesmo tempo, e pela primeira vez nos últimos meses, ouvi distintamente o som da minha voz. Reconhecia-a como a que ressoava há longos dias aos meus ouvidos, e compreendi que, durante este tempo, falara sozinho.”

Joaquin Phoenix fala pelo canto da boca, tem uma postura curvada, gestos e olhares inquietos, totalmente surtado, assim como os melhores papeis que o ator costuma fazer. Como se fosse um país em flagelos após sofrer uma derrota. Lembra qté o próprio Travis Bickle, de Taxi Driver.11Nessa falta de mote para a vida eis que surge Lancaster Dodd. Líder de uma ordem, firmeza na postura e nas palavras, um excelente articulador. Vai navegando em busca de encontrar sua terra para poder desembarcar com as bagagens e, principalmente, suas ideias. O Mestre funciona como chefe político que se apropria de um país devastado para implantar seus pensamentos e moldá-lo da melhor forma possível.the-master-imageEm um dos momentos descontraídos, Dodd conta a história de um dragão furioso, que foi domado e depois levado para passear. É assim que ele age e transforma Quell em uma cobaia para seus experimentos mentais.

Phillip Seymour Hoffman é um dos melhores atores de Hollywood. Quando está frente a frente com Joaquin Phoenix existe um embate do colonizador e do conquistador, da besta e do domador, um duelo não só de palavras, mas de corpo, angústia. Esse dilema cresce e chega ao ponto de questionarmos:

– Quem depende de quem? Qual deles serve de mola propulsor para o outro?TheMaster_Aceshowbiz

Dodd é um homem convicto de seus juízos, mas em certo momento o “Can you remember” é trocado por “Can you imagine”, como se o que ele acreditasse não fosse mais concreto. Já Freddie muda certas atitudes, mesmo com sua rebeldia, será que A Causa o afetou? Dois extremos que no fundo se complementam.

Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, é o responsável pela trilha sonora que deu ainda mais estranheza para a trama. As sequências trazem belas cenas, cores, um belo trabalho de fotografia que é enfatizado pelo movimento de câmera que enfatiza a encenação dos atores em cada detalhe. Paul Thomas Anderson é um autor, de ótima qualidade, diga-se de passagem. Traz um cinema questionador, criativo e gritante. Aberto a muitas interpretações, onde a história cresce com o passar do tempo.

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