A BATALHA DE SAMUEL FULLER

Paixões Que Alucinam 3_Peter BreckTexto: Renato Fernandes
Edição: Luiza Wolf

http://www.barulhonoset.com.br/component/content/article/52-filmes/176-especial-samuel-fuller.html

Samuel Fuller 2Um jazz pulsante e um travelling de câmera que acompanha os movimentos bruscos de Kelly (a atriz Constance Towers) no ataque a um homem logo na primeira cena de ‘O Beijo Amargo’ (1964). Samuel Fuller chega com o pé na porta e traz consigo um cinema cheio de agressividades que mostra a realidade fora das convenções sociais, uma reflexão do mal-estar da época do pós-guerra. Fuller apresenta características vitais para a construção de suas obras: a experiência como repórter policial o ajudou a captar a atmosfera do submundo das ruas, e seus protagonistas andam sempre com a dualidade do bem e do mal.

A carreira de Samuel Fuller já teve início com uma situação nada agradável: sua primeira experiência com a câmera foi na Segunda Guerra Mundial, onde serviu na divisão conhecida como “The Big Red One”, fato que serviria de inspiração para o clássico ‘Agonia e Glória’ (1980). No final da guerra, o seu pelotão invadiu o campo de concentração de Falkenau, na Tchecoslováquia. Sam havia ganhado da mãe uma câmera 16 mm e gravou as imagens do campo a mando do capitão.

O Beijo Amargo_Constance TowersAlém de dirigir, a responsabilidade pelo roteiro e produção estava nas suas funções, o que o lhe dava independência de trabalhar com os temas mais tempestuosos. Era o contraponto dos padrões pré-estabelecidos: não gritava “Ação!” no set de filmagem, preferia mesmo dar um tiro para o alto para que os atores entrassem em cena. O seu cinema seguia as transformações do mundo para não perder a razão social com um olhar questionador e fervoroso.

Assistir a seus longas nunca foi tarefa fácil no Brasil, pois a quantidade de títulos lançados em DVD é bem pequena no país. Porém, Samuel Fuller: Se Você Morrer, Eu te Mato! faz uma retrospectiva integral com a exibição de 24 filmes do diretor ao longo de 40 anos de carreira, além de dois documentários. A plateia terá a chance de conferir o trabalho do cineasta como deve ser visto, ou seja, nas telonas. A mostra vai passar por três unidades do CCBB: começa nesta quarta-feira (dia 20) em São Paulo, onde permanecerá até o dia 31; depois, estreia em Brasília (De 26 de março a 14 de abril) e no Rio de Janeiro (De 16 de abril a 5 de maio).

“Essa é uma oportunidade de conhecer um dos cineastas mais influentes da história. Chegou a atuar em produções de Jean-Luc Godard, Wim Wenders e Steven Spielberg. Isso já mostra como os seus longas inspiraram profissionais dos mais variados estilos. A maior parte das exibições será em película, incluindo obras-primas máximas como ‘O Beijo Amargo’, ‘Paixões que Alucinam’, ‘Agonia e Glória’ e ‘Cão Branco’”, diz o curador da mostra Julio Bezerra.Anjo do Mal 1 (Pick up on South Street)_Richard Widmark e Jean PetersLegado

Um dos seus maiores militantes e defensores foi Carlos Reichenbach, célebre figura do cinema marginal e da Boca do Lixo. Carlão não cansava de enfatizar a importância e a influência desse ícone. No seu ‘Alma Corsária’ (1993), fez questão de premiar com o Oscar um sósia de Fuller que estava em frente a um pôster de ‘Capacete De Aço’ (1951).

Em uma época cheia de conflitos históricos e políticos, as escolas de cinema e os diretores europeus tiveram uma boa parte da influência para a Nova Hollywood, que estremeceu as estruturas da sétima arte com a geração sexo, drogas e rock’n’roll no fim dos anos 1960. Contudo, Sam nunca procurou o lado da comodidade – trilhar por assuntos obscuros e incômodos foi seu principal objetivo já no fim dos anos 40 e ao longo da década de 50. Com certeza, foi um dos antecedentes e um dos principais agentes motivadores para a geração com nomes como Steven Spielberg, Arthur Penn e Francis Ford Coppola, entre outros. Martin Scorsese chegou a dizer que “quem não gosta de Sam Fuller não gosta de cinema”.

“Samuel Fuller se interessava por personagens marginalizados, esbanjava uma precisão dramática invejável, e desenvolveu uma forma de filmar sem meios termos, direto ao ponto. Sempre prezou, acima de tudo, pela sua liberdade de expressão e artística, pelo direito inalienável de filmar o que bem entendesse. Seus longas são como nenhum outro, em seus erros e acertos”, enfatiza Julio Bezerra.Cão Branco_Kristy McNicholO Lado B

Passeando por westerns, dramas, filmes de guerra e noir, não importa o gênero, ele tinha a preferência de caminhar por histórias que se distanciavam do óbvio. Em ‘Anjo Mal’ (1953), o destino de uma investigação da CIA está nas mãos do batedor de carteiras Skip McCoy (Richard Widmark) que não liga para nada, muito menos para política. ‘Casa de Bambu’ (1950) critica o “American Way of Life” (aquele perfeito estilo de vida norte-americano) e traz soldados americanos que se tornam criminosos no Japão após a guerra. Um soldado sulista revoltado com a derrota na Guerra de Secessão se torna índio por um ódio aos yankees, em ‘Renegando o Meu Sangue’ (1957).

Jornalismo, loucura, psicanálise e política estão inseridos em ‘Paixões que Alucinam’ (1963). Johnny Barrett (Peter Breck) quer ganhar o Prêmio Pulitzer e se interna em um hospício para investigar um assassinato e escrever a matéria de sua vida. Entretanto, sua cabeça dá um nó. Já em ‘Capacete De Aço’, Fuller se aventura pela Guerra da Coreia, um dos primeiros a pisar em um assunto incomodo para os Estados Unidos. Um dos ápices da batalha acontece em um monastério budista, as orações e as meditações dão lugar a explosões.  Uma dupla de detetives investiga um caso e se apaixona pela mesma mulher no longa ‘O Quimono Escarlate’ (1959). Quando tudo se planejava para um fim convencional, a trama acaba favorecendo o personagem que foge dos padrões americanos.

05As experiências na Segunda Guerra Mundial do diretor estão mais explícitas em cada sequência de ‘Agonia e Glória’. Ao invés de retratar sentimentos de exaltação aos conflitos bélicos ou a líderes nas frentes de batalha, o filme é centrado na melancolia e no pessimismo. Não existe honra ou orgulho patriótico, o heroísmo mesmo é sobreviver. Uma cena antológica acontece em meio a um tiroteio em um hospício, um louco dispara uma metralhadora desenfreada para imitar a “lucidez” dos soldados. Uma forma de refletir sobre os valores e insanidades da guerra.

‘Cão Branco’ (1982) tem como tema central o racismo. O longa acabou sofrendo injustiças ao abordar um assunto polêmico e chegou a ser engavetado pela Paramount e nunca lançado nos cinemas americanos. O episódio levou Fuller a mudar-se para a França. O travelling circular no final é um dos ápices de sua filmografia.

O diretor morreu em 1997. Uma das maiores perdas da história do cinema que foi registrada nas palavras do crítico Inácio Araújo: “Há o cineasta que se admira e há o cineasta que se ama. Para os fãs de cinema, Samuel Fuller certamente estava nessa segunda categoria, e sua morte, aos 85 anos, na última sexta-feira, soa como uma catástrofe. É um pouco como perder o pai ou a mãe. Mesmo que tenham 120 anos, nada nos consola da perda”.

O trabalho desse cineasta continua resultando discussões e quebrando o conformismo na linha de frente, como ele próprio ressaltou em ‘Pierrot, Le Fou’ (1968), de Jean-Luc Godard.  “O cinema é um campo de batalha. É amor, ódio, ação, violência, e morte. Em uma palavra: emoção”.

Samuel Fuller: Se Você Morrer, Eu te Mato!

São Paulo: CCBB. R. Álvares Penteado, 112, Centro, tel. (11) 3113-3651. De 20 a 31 de março. R$ 4 (sessões em DVD, grátis).

Brasília: CCBB. SCES, Trecho 02, Lote 22, tel. (61) 3108-7600. De 26 de março a 14 de abril. Grátis.

Rio de Janeiro: CCBB. R. Primeiro de Março, 66, Centro, tel. (21) 3808-2020. De 16 de abril a 5 de maio. R$ 6.

Programação e mais informações: www.bb.com.br/cultura

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