A BELEZA E O INFERNO

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O Perigo de Ler. Esse é o prefácio que abre A Beleza e o Inferno, de Roberto Saviano. Uma obra que tem como principal objetivo o questionamento. Em cada linha, o autor não economiza nas palavras, dá nome aos bois, mesmo que essa atitude implique que sua vida se torne um puro exílio, sem ao menos saber onde vai passar a próxima noite. À medida que enche os textos com “belezas” que permeiam o mundo não se esquece de enfatizar o poder dos “infernos”. Sua vontade é fazer com que a verdade exista e chegue aos ouvidos, olhos, mente e coração de todos.

Pistoleiros que tiram a vida de qualquer um como se estivessem amarrando os sapatos; a música e o engajamento social de Miriam Makeba; o cinema de Vittorio De Seta ; a sétima arte e o teatro que fizeram aumentar seu trabalho ainda mais; cidades italianas que recebem ajuda humanitária por causa de um terremoto ocorrido há quase 30 anos e são usurpadas pela comorra. O cimento que era feito para construir é usado para matar, como o lixo que contamina o solo e acaba com a vida de milhares de pessoas.

Escreve também sobre dois gigantes, um que ignorou o pequeno tamanho de seus membros e se tornou um dos maiores nomes do jazz (Michel Petrucciani). O outro repetiu o gol mais bonito de todas as Copas do Mundo de Maradona no campeonato espanhol e caminha para ser o melhor da história (Lionel Messi). Não menos importante, conta a história de pugilistas que vencem nos ringues e dão socos na cara da máfia italiana para não entrar no ciclo do crime. E o homem que ficou anos dentro de uma “família” e por um bom tempo deixou de lado sua vida para investigar os horrores da máfia.

saviano002A literatura é uma de suas principais homenageadas, tanta a área de ficção ou de jornalismo. Destaca William Trevor Vollmann, que faz com que seus escritos atinjam as pessoas com seu olhar aguçado para a descrição da história. Já Michael Herr leva seus leitores para dentro da Guerra do Vietnã com a minucia e cuidado nos detalhes de Despachos do Front. Ressalta a criação da linguagem Isaac Bashevis Singer que reflete sobre o sentido de existir. Ou prefere levar socos no estômago com Gustaw Herling e as barbáries cometidas pelo regime stalinista da URSS contra milhões de pessoas. Saviano até coloca 300 de Esparta, de Frank Miller como grande literatura.

O autor não esqueceu de seus companheiros, que assim como ele, abdicou fingir que está tudo bem. Até mesmo aqueles que pagaram com a própria vida. Saviano luta para que seus esforços não sejam esquecidos como o de Anna Stepanovna Politkovskaia, jornalista que revelou os horrores da Guerra da Tchetchênia e foi assassinada.

“A força da literatura continua sendo essa sua incapacidade de reduzir-se a uma dimensão, de ser apenas uma coisa, seja ela notícia, informação, seja sensação, prazer, emoção. Essa fruibilidade lhe permite ir além de todo limite, superar as comunidades científicas, os especialistas, e caminhar no tempo cotidiano de qualquer um, tornando-se instrumento invergonhável e capaz de forçar toda malha possível. A própria potência que fazia os governos soviéticos temer mais Boris Pasternak e O Doutor Jivago e Os Contos de Kolimá, de Shamalov, do que as investidas de contraespionagem realizada pela CIA”.

Roberto Saviano ainda enfatiza “Eu não queria que essas minhas palavras fossem definidas como uma introdução. Essas palavras são uma prece, pronunciada com todas as possíveis frases litúrgicas ao leitor que decidiu gastar seu tempo lendo-as.

A Beleza e o Inferno tem textos de diversas épocas, algo que evidencia a evolução do autor. Saviano pode ficar tranquilo, suas palavras podem ser comparadas com as arrancadas de Lionel Messi que ninguém consegue parar.

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