QUAL É O PAPEL DA CRÍTICA?

taxidriverAntes de tudo, esse é um ato qualitativo, aberto a experiências e sensações que são despertadas por uma obra de arte. Pode ser em qualquer campo cultural: cinema, teatro, literatura, artes visuais. Funciona como uma espécie de lupa para o leitor, identifica questões que não são visíveis a “olho nu”. Não importa se a crítica seja positiva ou negativa, ela precisa ter esse apelo, aberta a vários diálogos e com atenção profunda ao objeto avaliado.

Entretanto, boa parte das pessoas quer ler somente uma transcrição de ideias que estão em suas cabeças. Não aguentam presenciar quaisquer opiniões contrárias as suas. Enxergam o mundo de uma maneira quantitativa por meio de números e formulas. Um caminho errado ao se tratar de uma questão pluralista e sensível. 117081209_birds_358539b

(…) “o crítico não existe para estar atrás do leitor, mas, ao contrário, para antecipar-se a ele. Como é, supostamente, um especialista, dedica-se ao estudo daquilo, vê filmes constantemente, passados e presentes, lê textos a respeito, etc., ele é alguém que tem algo a ensinar ao leitor que aprecia aquela arte, mas de maneira esporádica, sem um compromisso maior. Ou, caso seja um espectador frequente, o crítico estará ao seu lado, é alguém com quem o leitor dialoga, discute, concorda, discorda, etc.

Resumindo: a crítica – como atitude diante do mundo – não é para consumidores, mas para cidadãos. E o mundo se desenha mais para consumidores do que para cidadãos. Azar o nosso (…).

Palavras do mestre Inácio Araújo que ilustram todo esse assunto, onde ele domina e acerta em cheio.

Na edição de março da Revista Bravo, o crítico navega por uma de suas especialidades: Alfred Hitchcock. O texto enfatiza o legado desse cineasta pegando como ganho o recente Hitchcock, de Sacha Gervasi. “Hitchcock conseguiu dirigir as emoções dos espectadores como se rege uma orquestra. O público ficou subjugado”.

Inácio ainda vai mais longe e mostra o porquê da crítica, o que mantémhitchcock-with-birds obras de arte ainda viva em função seus acertos. “Hitchcock seria um monstro caso não provasse, filme após filme, crise após crise, que seus sentimentos e intuições, por mais malévolos e perversos que fossem, coincidiam com o que o público experimentava. Psicose valeu-lhe os reproches e muxoxos da indústria, mesmo depois do sucesso. Mas era impossível negar aquilo que Hollywood mais prezava: o sucesso, justamente. Walt Disney pôde recusar que Hitchcock filmasse na Disneylândia. Ora, Walt, você não passa de um estraga-prazeres! De que grandes momentos você nos privou… Só mesmo o torturado Hitch, com seu terror e humor, era capaz de mostrar as belezas e as feiúras, as grandezas e horrores de que somos feitos. Ele talvez tenha sido mais completo em sua demonstração em Um Corpo que Cai ou Janela Indiscreta, é verdade. Mas nunca foi tão incisivo quanto em Psicose.”

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