‘Tabu’ e o Cinema de Miguel Gomes

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http://barulhonoset.com.br/especial/44-estreias-especial/215-critica-tabu.html

Texto: Renato Fernandes
Edição: Luiza Wolf

Após ser destaque em vários festivais pelo mundo e ter ingressos esgotados na Mostra Internacional de Cinema, um dos mais belos filmes das terras lusitanas desembarca por aqui. Em preto e branco, Tabu, dirigido pelo português Miguel Gomes, é uma reflexão sobre a vida e o cinema ao mesmo tempo, o passado ganha uma releitura no presente em ambos os sentidos.

Na primeira parte, Aurora, uma idosa temperamental, sua empregada de Cabo Verde e uma vizinha dedicada a causas sociais partilham o andar de um prédio em Lisboa. A senhora Aurora está em seus últimos dias de vida, dizendo palavras desconexas. Por um flashback, desenhado pela voz de um até então desconhecido senhor Ventura, todos começam a conhecer uma história de amor e crime passada na África.

Aurora se encontra em sua juventude plena, inteligente, inquieta, casada e prestes a ter seu primeiro filho. As aparências deixariam a personagem realizada em todos os âmbitos, porém ela sente-se atraída e apaixonada por um forasteiro chamado Ventura (interpretado pelo brasileiro Ivo Müller). Um casal que tem como símbolo um crocodilo.

‘Tabu’ se transforma praticamente em um filme mudo na segunda parte com toda a história da jovial protagonista. A narração de Ventura funciona como letreiros que aparecem de vez em quando para trazer uma informação ao espectador. O trunfo são as imagens, o trabalho de fotografia primoroso, valorizando a natureza, as paisagens e os gestos fortes que se desenrolam entre os personagens. Assim como o filme homônimo ‘Tabu’, de 1931, dirigido pelo alemão F.W. Murnau, que emprestou o título para o longa de Miguel Gomes.

‘Tabu’ firmou-se como uma das obras primas de Murnau. A trama também retrata o amor impossível entre dois jovens nativos, pois a garota Reri é decretada por lei tribal como intocável a todos os homens. O longa tem cenas antológicas ao mostrar a pureza de uma sociedade primitiva, imagens que estão entre as melhores da história do cinema.

No novo ‘Tabu’, a escolha de Aurora como protagonista não é por acaso: o nome da personagem é também o título de outro trabalho do diretor alemão de 1927. Em ‘Aurora’, Murnau conta a história de um fazendeiro que é coagido pela amante e tenta matar a própria esposa. Mais um dilema que envolve amores e encontros e desencontros.

Além das citações, Miguel Gomes caminha com as próprias pernas ao manejar um roteiro e uma direção corajosa, que foge do comando habitual. Um novo que não esquece de suas raízes na hora de construir a sua verdade.

O cinema de Miguel Gomes quebra os padrões narrativos. Sai de um prólogo, vai para os tempos atuais e pula para o passado. Uma característica não só de ‘Tabu’, mas também de ‘Aquele Querido Mês de Agosto’ (2008; foto à direita). Uma produção que pode ser vista por vários ângulos. O filme acompanha as relações afetivas entre pai, filha e um primo, todos músicos em uma banda de bailes que se apresentam em vários locais no interior de Portugal. Ou pode ser uma equipe gravando um longa/documentário sobre essas celebrações do mês de agosto. Um filme dentro do filme? Não importa, quando a última cena chega, fica a sensação de umas férias que vão embora, saudosista, é preciso voltar para a realidade.

Já ‘A Cara que Mereces’ (2004; foto à esquerda) marca sua estreia como diretor em longas-metragens e também revela essa fragmentação narrativa. No dia em que completa 30 anos, Francisco entra em crise existencial e até contrai sarampo passando a viver em um estado alucinatório. Neste momento, sete personagens, que são projeções de sua consciência febril, vivem histórias e aventuras de caráter infantil. Uma verdadeira fábula na cabeça de um protagonista que prefere o mundo dos sonhos ao invés da desilusão do dia a dia.

O cinema lusitano está em ótimas mãos. Enquanto o centenário diretor Manoel de Oliveira mostra que sua obra continua arrebatadora – inclusive em seu trabalho mais recente, ‘O Gebo e A Sombra’ – Miguel Gomes representa uma geração mais nova, contudo com mesmo questionamento e entusiasmo cinematográfico.

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