O LADO BRASILEIRO DE TABU

http://www.barulhonoset.com.br/especial/44-estreias-especial/216-o-lado-brasileiro-de-tabu.html

Texto: Renato Fernandes
Edição: Luiza Wolf

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Tabu tem causado barulho por onde passou, principalmente no Festival de Berlim, onde levou o prêmio da Federação da Crítica Internacional e o Alfred Bauer, concedido ao filme mais inovador do evento. A produção foi considerada um dos melhores longas de 2012 pela Cahiers du Cinéma e também pela revista New Yorker e pelo jornal The New York Times. Foi um dos principais destaques na Mostra Internacional de São Paulo em 2012 e somente estreia definitivamente no Brasil na sexta-feira (dia 28).

A trama é instigante. Quem imaginaria que as conversas sem pé nem cabeça da velha Aurora esconderia um passado tão rico de fatos e causos impressionantes? Uma poesia que está no roteiro e nas sequências ao revelar um passado emocionante da personagem. Um dos destaques fica por conta de seu marido, interpretado por Ivo Müller. O ator brasileiro contou detalhes de seu trabalho com o diretor português Miguel Gomes e falou sobre como teatro e cinema tem guiado sua carreira.

Barulho no Set – Você já tinha algum conhecimento na obra de Miguel Gomes antes estrelar o filme? Tem algum deles que você gosta em particular?

Ivo Müller – Recebi toda a obra do Miguel em DVD, assisti a todos os curtas no dia seguinte a reunião em Portugal. Dos longas, gosto muito do ‘Aquele querido mês de agosto’. É um filme surpreendente, com um desfecho mágico, que já aponta para o filme seguinte, o ‘Tabu’.

Como foi o convite para estar no elenco de ‘Tabu’?

Foi pelo caminho da coprodução. Estavam fazendo testes de elenco com atores brasileiros, e enviaram registros meus em vídeo. Miguel e sua equipe assistiram a uma peça de teatro e a algumas cenas nas quais atuei na TV. Duas semanas depois, me chamaram para uma reunião em Portugal._00000013 copyOs filmes de Miguel Gomes sempre têm suas peculiaridades. Na segunda parte de ‘Tabu’, não há diálogos, apenas a narração de um personagem. Como foi trabalhar dessa maneira? Considera uma homenagem ao cinema mudo?

Tente lembrar de algo importante que aconteceu na sua vida. Você se recorda de determinadas imagens, músicas, paisagens. Outra pessoa que viveu aquele momento contaria o mesmo episódio, só que de outra maneira. Isso é a segunda parte do filme, a memória de um dos personagens. Trabalhamos com uma entrega muito grande, não havia um roteiro definitivo. Havia algo que posso chamar de “guia”, que poderia ser alterado conforme determinadas circunstâncias. Não conhecia o Miguel, tudo parecia muito maluco, muito arriscado. Mas essa é a graça do cinema. Creio que trabalhamos no que há de indizível entre o “ação” e o “corta” e aí encontramos a poesia. Isso está no filme.

Mas não se trata de um filme mudo, as cenas têm outros sons. É algo específico do ‘Tabu’, talvez algo que evoque o que é mais forte nas lembranças.

Como foram as filmagens na África?

Foram mais de 16 horas de viagem até chegar ao Gurué [Moçambique], cidade onde filmamos a maior parte das cenas. Um lugar muito bonito, que lembra algumas regiões serranas do Brasil, só que repleto de plantações de chá. Entrei no filme já no meu segundo dia de África. Foi muito rápido. E estar ali era fundamental para entrar no clima. Eu saía para correr depois das filmagens, no final da tarde. Era uma maneira de relaxar, respirar aquele ar mais intensamente. Percebi que o que eu fazia era algo muito estranho para os moradores da cidade. Todos ficavam me olhando, as crianças riam quando eu passava.  As crianças me achavam engraçado e isso me ajudou a entender quem era aquele personagem. A segunda parte de ‘Tabu’ tem uma atmosfera de filme de aventura. E nós vivemos aquilo. Todo dia era uma novidade, uma paisagem, uma estrada, uma nuvem diferente ao lado do nosso Monte Tabu [Monte Namuli, o segundo pico mais alto do país africano, que fica na cidade das filmagens]. Era como se aquele crocodilo que faz a ligação entre os personagens pudesse abocanhar um de nós a qualquer momento. Miguel trabalha com a mesma equipe desde o primeiro filme. Ele é um cara que sabe tudo sobre cinema e tem os melhores profissionais ao seu redor. Quando penso na África tenho saudades. As imagens e a poesia daquele roteiro me conquistaram.IMG_0696Tabu foi um dos destaques da última Mostra Internacional de São Paulo e gerou uma ótima repercussão. Como está a expectativa para a estreia no Brasil? Tem notícias de como o longa tem sido recebido em outros países?

O filme foi um dos mais procurados da Mostra. Muitos não conseguiram vê-lo naquelas três sessões e estão contando os dias para a estreia. Esses são os cinéfilos, mas tenho a esperança de que o público descubra ‘Tabu’ e de que o filme fique bastante tempo em cartaz. Minha expectativa também é grande, pois até hoje tem gente que acha que sou português, ou um ator alemão da coprodução. É importante que se diga que esse filme, premiado praticamente em todos os festivais pelos quais passou –dois prêmios em Berlim, que foi sensação na França– tem um ator brasileiro.

O filme tem uma poesia em cada plano e sequência. Traz uma história que chega devagar, porém se mostra verdadeiramente forte. Conseguiu ver o longa como espectador na telona?

Ainda não consegui ver o filme com distanciamento. Assisti pela primeira vez na premiere em Berlim. Fiquei muito emocionado com o que estava acontecendo. Ao mesmo tempo, estávamos todos apreensivos para ver como o filme seria recebido. Mas houve um arrebatamento após a sessão, sabia que não era um filme qualquer.tabu entrevista 3O cinema está inserido de alguma forma em seus recentes trabalhos no teatro. ‘12 Homens e uma Sentença’ ficou mais de dois anos em cartaz e é um clássico de Sidney Lumet, de 1957. Já ‘Cartas a um Jovem Poeta’ se inspirava em Alexandr Sukurov e O Espelho (1975), de Andrei Tarkovsky. Como é a sua ligação com cinema e teatro?

Amo o que faço e minha ligação com meu trabalho é algo muito forte. Comecei fazendo curtas-metragens, ali tive minhas primeiras experiências profissionais, quando ainda era um estudante de direito que não sabia que caminho seguir. Mais tarde, quando decidi ser ator para valer, a vida me levou para grupos de teatro cujos diretores usam o cinema como referência. ‘Cartas a um Jovem Poeta’ foi montado logo que saí do Centro de Pesquisa Teatral, onde assisti a todos esses filmes russos. Gosto muito da Tetralogia do Poder do Sukurov [‘Moloch’ (1999), ‘Taurus’ (2001), ‘O Sol’ (2005) e ‘Fausto’ (2011)], por exemplo. Durante os ensaios de ‘12 Homens e Uma Sentença’ vimos muitos filmes, dentre eles uma adaptação russa de 2007, excelente, do diretor Nikita Mikhalkov, um contraponto ao original, o clássico dirigido pelo Sidney Lumet nos anos 50.

Você está com outros projetos engatilhados? Pode falar sobre eles?

Participei de ‘A Menina sem Qualidades’, um seriado da MTV, dirigido pelo Felipe Hirsch, adaptado do livro da alemã Juli Zeh. Fiz um curta, ‘O Tempo que Leva’, dirigido pela Cíntia Domit Bittar (de ‘Qual queijo você quer?’), que deve estrear em algum festival ainda este ano. Tenho mais coisas pela frente, algumas já estão acontecendo, mas teatro e cinema dependem tanto de fatores externos, que é melhor esperar.

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