A BELA QUE DORME

http://www.barulhonoset.com.br/criticas/41-estreias/217-critica-a-bela-que-dorme.html

Texto: Renato Fernandes
Edição: Luiza Wolf
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O desenvolvimento de questões políticas teve maior atenção nos últimos filmes de Marco Bellocchio. ‘Bom Dia, Noite’ (2003) retratou o caso Aldo Moro, o político sequestrado pelo grupo comunista Brigadas Vermelhas na década de 1970. Já ‘Vincere’ (2009) teve como foco o nascimento do fascismo e o lado amoroso de Benito Mussolini. A Bela que Dorme (2012) passeia pelo mesmo dilema, todavia faz um questionamento que engloba vários pilares da sociedade. O longa já ganhou, em 2012, o prêmio de Melhor Filme pela crítica da 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e viajou por vários festivais pelo mundo, mas batalhou por quatro meses para entrar no circuito nacional e finalmente estreia nesta sexta-feira (12). bella-addormentata-180960_0x410

A trama se baseia no caso verídico de Eluana Englaro. Após um acidente de automóvel, ela entrou em estado vegetativo, no qual permaneceu por 17 anos. Seu pai, Beppino Englaro, protagonizou uma batalha judicial com o objetivo de conseguir a remoção do tubo de alimentação que a mantinha viva. O assunto obteve um amplo destaque na imprensa italiana e mundial de 1999 até 2009, quando o direito foi concedido e Eluana faleceu. Sua morte culminou com críticas severas, principalmente vindas da Igreja Católica.

O novo filme de Marco Bellocchio é um mosaico de histórias que permeia esse famoso e controverso caso na Itália, como se existissem outras “Eluanas” espalhadas por aí. Um senador (Toni Servillo) vive um impasse político e pessoal na hora de decidir sobre a liberação da eutanásia. Maria (Alba Rohrwacher) acredita no catolicismo e decide protestar em frente à clínica onde ocorre a hospitalização de Eluana. Ao lado de seu irmão, Roberto (Michele Riondino) é um militante laico, um opositor por quem Maria se apaixona. Ao mesmo tempo, uma mãe bastante religiosa (Isabelle Huppert) cuida da filha em coma, enquanto negligencia o resto da família. Por fim, Rossa (Maya Sansa) quer morrer, mas um jovem médico opõe-se ao seu suicídio.

Nos momentos mais densos, a câmera do cineasta italiano focaliza o enquadramento nos rostos dos personagens e enfatiza a dor em cada olhar, gesto ou expressão. A fotografia tem a cor cinza predominante, como se exprimisse a atmosfera nebulosa na qual a trama se encontra. O longa é barulhento, a Itália está em ebulição, todas as esferas sociais querem opinar. Porém, em certos momentos, quem ocupa o maior espaço é o silêncio, que é quebrado apenas pelo som dos aparelhos médicos de um quarto de hospital.una_foto-de_bella_addormentata_di_marco_bellocchio4567img_9794francesca_fagoMais um acerto na filmografia de Marco Bellocchio, um cineasta que conseguiu trabalhar com um assunto delicado, sem trazer uma resposta pronta ou uma ideia panfletária. Pode-se dizer que ‘A Bela que Dorme’ não questiona somente a eutanásia; é uma reflexão sobre o sentido de existir. Até onde vai liberdade de acabar com a vida do outro ou de si mesmo?

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