A ARTE DE COUTINHO

eduardo-coutinhoO tradicional ciclo de debates na FAAP recebeu Eduardo Coutinho, homenageado na Mostra deste ano com uma retrospectiva e o lançamento de um livro. Após a exibição de Edifício Master (2002), o auditório da FAAP permaneceu lotado para uma conversa com o diretor, que falou sobre aspectos específicos de sua obra, trajetória e como vê o cinema.

O documentário na televisão e a herança do Globo Repórter
“Não há espaço na TV para programas autorais e independentes como os que fazíamos. Se houver espaço, será numa televisão pública; esse espaço hoje é impossível em qualquer outro tipo de televisão. As pessoas não entendem que forma é conteúdo, e é isso que interessa.”

Edifício Master
“Foi um filme muito complicado, foram três semanas de pesquisa, a polifonia do lugar era o que me interessava. O filme é feito do fato de eles serem tão diferentes, e isso é maravilhoso. O filme não foi feito pra dizer que o prédio é um paraíso ou um inferno, as coisas não são assim. E no final das contas eles foram montados na ordem em que foram filmados, exceto por pequenas mudanças”.

O processo e método de realização dos filmes
“Eu faço pesquisa por três semanas e gravo por uma, por uma questão de custos. Mas a pesquisa é um mecanismo psicológico estranho. A equipe de pesquisa me traz depoimentos filmados e escritos. Porque eu não vou falar com ninguém pra ouvir ‘como eu já lhe disse’, porque isso me mataria. Eu não quero que ninguém reconte nada, tem que parecer que a pessoa fala comigo pela primeira vez. E mesmo com a pesquisa eu me surpreendo, porque o contexto das coisas muda no momento da filmagem. No documentário você sempre está na mão do improviso, não existe erro ou acerto”.

Sobre a polêmica de pagar para os depoentes
“Nós chegamos na casa das pessoas às dez da manhã, num horário que talvez elas nem estivessem lá, é o mínimo que eu posso fazer. Os franceses acham isso um absurdo, mas tem europeu que fica filmando por dez dias seguidos com as pessoas e não paga, acha que elas têm que ficar à disposição. Tem gente que acha que as pessoas vão falar só porque eu estou pagando, que vão querer agradar, mas isso é uma visão ingênua das coisas”.

Depoimentos e a palavra como cerne do seu cinema
“Eu acho que eu consigo fazer as pessoas falarem porque eu me disponho a escutar. Hoje em dia ninguém escuta ninguém. A conversa é uma troca e só pode ser corporal, presente, porque a palavra é uma emanação do corpo. Eu preciso das pessoas, mas no final das contas eu acabo só conhecendo a sombra delas”.

Ética no documentário
“A estética do documentário é a ética. O terrível do documentário é que ele existe há 80 anos e as pessoas ainda cobram dele a função de documentar e educar. E politicamente o documentário é cobrado de coisas que a ficção não é, sendo que hoje em dia eles estão cada vez mais misturados”.

Texto retirado do link http://37.mostra.org/br/jornal_interno/33-Eduardo-Coutinho-fala-sobre-sua-obra-e-trajetoria-aos-estudantes-da-FAAP

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