MICHEL CIMENT

295129202_640O crítico francês Michel Ciment, que este ano celebra 50 de carreira na Revista Positif, abriu seu depoimento para o ciclo Os Filmes da Minha Vida explicando que não iria focar nos filmes que viu em retrospectivas ou durante a infância, e que sim iria destacar os que foram lançados depois dele ter formado sua consciência crítica. Não que tenha nada contra os musicais e os westerns com os quais ele cresceu. “Os que desprezam o cinema popular”, disse, “não merecem cinema”.

Ciment começou com o desempenho revolucionário de Marlon Brando em Sindicato de Ladrões (Elia Kazan, 1954), filme que marcou sua adolescência. “Não digo que ele era melhor que Cary Grant, mas ele era tão diferente.” No mesmo ano, admirou a mistura de sonho e realidade de Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi, 1954). Mais tarde, ficou sabendo que, naquele ano, o júri do festival de Veneza não premiou filme algum com o Leão de Ouro por achar que nenhum estivesse ao nível de merecer o prêmio. “Queria que júris hoje em dia fossem severos assim, porque ninguém pode merecer um Leão ou Urso, em lugar algum, se Mizoguchi não merecia um Leão de Ouro”.

Continuou o depoimento citando Bresson, que “escrevia com a câmera” em Um Condenado à Morte Escapou (Robert Bresson, 1956), e Michelangelo Antonioni que, em O Grito (Michelangelo Antonioni, 1957), conseguiu com que atores internacionais interpretassem italianos de maneira convincente através da dublagem. “A Itália é o único país do mundo em que Burt Lancaster pode interpretar um príncipe siciliano! O movimento do neorrealismo era baseado em várias vozes que não eram realistas”. Quanto a nouvelle vague, viu os filmes que deram início ao movimento meses depois de seus lançamentos, já que estudava nos Estados Unidos na época, e admite que achou Hiroshima Meu Amor(Alain Resnais, 1959) bem mais impressionante que os primeiros longas de Truffaut e Godard.

Citando o impacto que O Bandido Giuliano (Francesco Rosi, 1962) teve em países de Terceiro Mundo, Ciment ficou impressionado por ele oferecer mais perguntas que respostas, apesar de ter um ponto de vista de esquerda. Também aprecia o polémico O Criado (Joseph Losey, 1963) e como o filme consegue ter uma analise psicanalítica dos personagens principais. Do Brasil, citou o estilo tropical de Os Fuzis (Ruy Guerra, 1964) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964), assegurando que não só os menciona porque estava falando com brasileiros.

Voltando para países mais frios, lembrou-se de como Persona (Ingmar Bergman, 1966) o surpreendeu por ser tão moderno, bem mais que os filmes de Bergman que vieram antes. Do ponto de vista técnico, tem grande admiração pelo estilo visual do neo-noir À Queima Roupa (John Boorman, 1967). Sendo o autor de Conversas com Kubrick, não podia deixar de citar 2001: Uma Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968). “Caminhei durante duas horas depois da sessão porque não podia voltar para o hotel de tão sobrecarregado que eu estava. Aquele filme era único, como todos sabem, com a exceção do Le Monde que recentemente escreveu uma crítica sobre Gravidade (Alfonso Cuarón, 2013) o citando como o filme mais estupendo já feito sobre o espaço. Eles só se esqueceram de 2001. Ninguém menciona um novo romance como o melhor já feito sobre adultério porque, na literatura, Madame Bovary e Anna Karenina não são ‘livros antigos’. É incrível que Kubrick fez as mesmas imagens 45 anos atrás, mas com menos tecnologia”.

Outros longas listados pelo critico foram Puzzle of a Downfall Child (Jerry Schatzberg, 1970), Viagem a Citera (Theodoros Angelopoulos, 1984), Nashville (Robert Altman, 1975), Sweetie (Jane Campion, 1989) e A Cidade do Desencanto (Hou Hsiao-Hsien, 1989). Depois de falar sobre quanto cineastas foram se tornando menos cultos ao decorrer dos anos, terminou exaltando a importância de tanto diretores quanto críticos terem um bom conhecimento não só sobre cinema, mas também sobre música, arte e política. Afinal, “o cinema é o mundo”.

Texto retirado do link: http://37.mostra.org/br/jornal_interno/30-Michel-Ciment-ldquoOs-que-desprezam-o-cinema-popular-nao-merecem-o-cinemardquo

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