OZU Parte II

large_equinox_flower_blu-ray_2xFlor do Equinócio (1958) mostra o casamento de Setsuko, uma jovem filha de um patriarca que decide se casar por livre arbítrio. Em A Rotina Tem Seu Encanto (1962), o militar viúvo Shuhei Hirayama (Chishû Ryû) teme que sua filha Michiko (Shima Iwashita), de 24 anos, fique solteira para sempre e, consequentemente, amarga e triste. Ele decide então procurar um bom partido para a moça e uma companheira para cuidar dele na velhice.

Ambos os longas de Yasujiro Ozu passam pelo mesmo tema recorrente em sua filmografia: o casamento. Ao invés de tratar o clichê do assunto, o diretor investe na dissolução familiar, a característica principal de sua obra.safe_image

O anticinema aparece de cara em Flor do Equinócio, um longa que retrata o casamento, mas não mostra o casamento. No início logo aparece a placa Perigo: Ventos Fortes, uma indicação que as próximas cenas aguardam. O filme é uma batalha forte entre as tradições e o novo, um duelo de gerações.equinox-flower-2

Uma das cenas que exemplificam esse mote é quando a mãe de Setsuko fala com a filha. A senhora numa calmaria e usando um quimono tradicional, já a jovem usa roupas ocidentais e se movimenta na correria. Os dois contrapontos enquadrados no mesmo plano de Ozu. Uma sequência que já evidencia todo o sentido da trama, além da forte influência americana na sociedade japonesa.

O mestre Ozu mostra sua clara preferência pela geração mais velha e contra a rebeldia dos jovens que esquecem toda a sua origem. O filme é o primeiro do diretor em cores, com o preto e branco ele já se preocupava com a tonalidade, fato que o levou a trabalhar bem com essa nova disposição, principalmente em relação ao vermelho, usado tanto no figurino quanto no cenário. Ou seja, é um cineasta que não esquece seu passado, mesmo com as novas tecnologias e opções da sétima arte.thumb (1)thumbA Rotina Tem Seu Encanto enfatiza a relação de pai e filha, uma separação próxima iminente, principalmente porque Shuhei Hirayama já é um homem viúvo. A mulher levanta a cabeça, uma das poucas vezes na filmografia do diretor. Por mais que o patriarca seja um militar, quem dá as cartas em sua casa é a sua filha Michiko.

As bebedeiras de saquê; a dificuldade financeira mesmo em um país cada vez mais industrializado; jogar um pouco de tênis; a busca por um noivo ou uma nova mulher; parece que todo o repertório do filme está em volta de personagens que tentam sair da solidão coletiva. Esse é o último filme de Ozu, um testamento que prevê o futuro, ele soube como poucos identificar as camadas de isolamento de uma sociedade.

tjkzd0syJJJtyFRAxmioqaR2crTEm Bom Dia (1959), o cineasta não atinge o ápice como nos filmes anteriores, mas com sua lente de 50mm observa bem a vida doméstica, onde traz para a telona diversos significados. Na trama, se unem pequenas histórias como as vizinhas fofoqueiras, um professor que toma coragem para se declarar para uma garota, além de dois garotos que fazem uma greve de silêncio ao exigir uma televisão.

O interior repetido das casas funcionam como espelhos no abre e fecha das portas, não dá para se localizar, funciona como um labirinto no lado anticinema. Não dá pra metrificar as dimensões da mensagem da obra: pode ser uma crítica a perda da força do cinema por causa da televisão ou a chegada imperialista dos EUA no Japão; ou um questionamento aos diálogos vazios e interações sociais no dia a dia. Ou seja, é tudo isso de uma vez e mais um pouco. Esse é Ozu!

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