VESTIDA PARA MATAR

large_dressed_to_kill_blu-ray_04

Não é de hoje que Brian de Palma se mostra um dos maiores herdeiros do Mestre Alfred Hitchcock. O diretor tem o maior prazer em nos direcionar para vários caminhos com sua mise en scène, que acaba nos enganando ao levar para seu labirinto de imagens. Pois, De Palma fala com imagens, na verdade grita e cria uma atmosfera de terror psicológico. Não precisa criar diálogos necessários, todas as lacunas são preenchidas por sequências de tirar o fôlego, trabalhar com imagem é o primordial do cinema e do renegado diretor de Hollywood.

Em Vestida Para Matar (1980), a parte que Kate Miller (Angie Dickinson) persegue e é perseguida no museu por um pretendente em um museu é icônica, os passos rápidos, os corredores, não se sabe onde aquela correria vai dar. Quando se menos se espera é com esse desconhecido que não precisamos nos preocupar. Na verdade, é com uma loira com a navalha que mora o perigo. O elevador, o close-up, a questão do duplo cinematográfico, todos os ingredientes de uma tomada focada apenas em imagens para se criar uma cena doentia da morte da protagonista até em então. Assim como Hitchcock mata Marion Crane (Janet Leigh) no início de Psicose. Outro paralelo é o antagonista transgênero como Norman Bates. Lembrando que um museu é importante no mistério que envolve Madeleine Elster (Kim Novak) em Vertigo (1958). Ou seja, são várias conexões.de_alma-dressed-to-kill

b9RHUexTE6MT5x6iZ2Wmq56H1cJJá nesse clássico dos anos oitenta, a trama é centrada em um terapeuta de Manhattan, o Dr. Robert Elliott (Michael Caine), que enfrenta um momento aterrorizante, quando um psicopata começa a atacar as mulheres de sua vida – usando uma navalha roubada de seu escritório. Desesperado para encontrar o assassino antes que outra pessoa seja ferida, Elliott logo se vê envolvido um perturbador desejo.

Voltando ao duplo cinematográfico, característica vital do diretor que mostra os dois lados de uma mesma moeda que estão prestes a entrar em conflito. A divisão da tela com a aproximação de Kate Miller e Elliott; a realidade do elevador e a outra realidade no espelho retrovisor mostrada no mesmo local; a inocente Liz Blake (Nancy Allen) em uma sala e na outra a assassina loira se aprontando para mais uma vítima. É impressionante como De Palma consegue colocar diversas camadas com a câmera que revela seu lado do cinema clássico americano com traços europeus, atingindo um cinema moderno, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Dressed to Kill

O vidro embasado pelo chuveiro coloca o banheiro com um tom lúdico no sonho Kate Miller; assim como o jogo de espelhos do devaneio de Liz Blake na cena final. O diretor insiste em “enganar” o espectador, realidade e sonho se unem na obra, onde fica difícil entender onde começa uma e termina a outra. De Palma fecha o longa assim como começou, por meio de uma narrativa praticamente circular, nos surpreendendo e provando que nossas neuras não terminam com a câmera desligada, as feridas são mais profundas.

Talvez o ápice da loucura fica por conta do pesadelo de Liz, quando o psicopata estrangula a enfermeira no sanatório e é simplesmente assistido pelos outros pacientes inertes, apreciando como meros espectadores. A câmera aérea vai se distanciando aos poucos, revelando uma sequência fantasmagórica. Nosso mundo é o dos loucos? A trilha sonora de Pino Donaggio enfatiza ainda mais essas demências que envolve a trama. large_dressed_to_kill_blue_blu-ray_10

A questão do corpo, uma autoridade médica que cede a insanidade, Brian de Palma lê muito bem nossa sociedade, homenageia Hitchcock e cria sua própria visão de mundo, pobres são aqueles que insinuam que ele é apenas um imitador do mestre do suspense. Por questionar tanto o mundo em que vivemos e próprio cinema, ele é tratado como marginal, vive fora do mainstream. No espírito de rebeldia, talvez ele seja o único, que ainda permanece vivo daquela geração que marcou principalmente os anos 70.

4-Dressed-To-Kill

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s