PASSION & SISTERS

Passion

Passion_FINALThere’s no back-stabbing here. It’s just business. Essa frase é repetida duas vezes em Passion e ajuda a entrar em seus meandros e na questão do mercado cinematográfico em que se encontra Brian De Palma. A tradução para o português seria Não tem nenhuma facada pelas costas aqui. É apenas negócio. Esse é o lema profissional de predador e presa que envolve Christine (Rachel McAdams) e Isabelle (Noomi Rapace). Do mesmo modo, revela a dificuldade e as barreiras que o diretor tem enfrentado para fazer seus projetos, pois ele não se “encaixa” no business do cinema ao martelar a indústria e a sociedade com seus trabalhos nada palpáveis facilmente, sem contar o alto índice de crítica e questionamentos. É arte fazendo pensar! Chega a ser ridículo, o filme lançado em 2012 e ainda não conseguiu um espaço digno de exibição. No Brasil, não existe nenhuma ideia de quando entrará em circuito, isso se essa hipótese realmente acontecer.

Passion é bem atual ao mostrar um ambiente profissional maçante e obediente, onde a concorrência acirrada é mascarada pelo espírito de equipe sorridente. Dentro dessa perfeição, rola uma obsessão romântica recheada de ciúme e jogos mentais e sadomasoquistas. Christine é elegante, confiante e ambiciosa. Já Isabelle é a novata brilhante que revela uma personalidade passiva e agressiva. Dirk (Paul Anderson) representa um catalisador que une e cria um conflito entre as duas personagens centrais. A trama é uma refilmagem de Crime de Amor, filme francês dirigido por Alain Corneau em 2010.CorinthianspassionA evolução tecnológica dos últimos tempos contribuiu para De Palma montar sua bela mise-en-scène. Celulares, Ipads, os próprios computadores, todos esses atributos servem para o diretor montar várias camadas de imagens, tendo como resultado o caos. Não é à toa, que o crime central é desvendado por um smartphone. O sentido de duplicações se encaixa perfeitamente, o belo jogos de espelhos ou o reflexo do monitor, o maneirismo da câmera, o travelling circular, os enquadramentos tortos, a luz e a sombra acrescentam um caráter fantasmagórico à fotografia, todas as características que marcam o trabalho do cineasta estão na tela.

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Passion: situação igual a de Margot em Disque M Para Matar e uma das vítimas de Frenesi

Não tem como não se lembrar de Psicose quando Christine vai para o chuveiros em uma das cenas chaves. Outra lembrança do universo hitchcockiano aparece na sequência em que Isabelle está prestes a sofrer um ataque peças costas, situação semelhante a uma das vítimas de Frenesi ou como a Margot (Grace Kelly) em Disque M Para Matar.

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Cenas no chuveiro que são chaves para Passion, Vestida Para Matar, influência de Psicose

O recurso da montagem paralela constrói a tensão e o suspense que se intensificam com a mudança para o duplo cinematográfico (Um espetáculo de balé e os momentos antes de um assassinato se unem na tela). O pesadelo de Isabelle nos engana como o de Laura Ash (Rebecca Romjin-Stamos) em Femme Fatale (2002) ou de Liz Blake (Nancy Allen) em Vestida Para Matar (1980). Contudo, diferente dos filmes anteriores, esse sonho acaba sendo real. 

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Passion flerta com a filmografia de Brian De Palma, fator que enfatiza que seu cinema tem um estilo, uma assinatura. Um dos maiores diálogos fica por conta de Irmãs Diabólicas (1973). Já na primeira cena, nos vemos dentro de outra encenação, temos sempre que perguntar o que é farsa e o que é real. Fica clara a crítica em relação a manipulação da realidade por um programa de TV. Assim como a campanha publicitária de smartphone em seu longa mais novo. Vivemos definitivamente em um mundo de aparências.

O filme setentista traz Danielle (Margot Kidder), suspeita de ter assassinado seu namorado. Aparentemente, ela foi vista cometendo o crime pela sua vizinha e repórter Grace (Jennifer Salt). No entanto, as investigações se complicam quando é revelado que Danielle tem uma irmã, que pode estar envolvida com o episódio.

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Duplo Cinematográfico com Passion (Esquerda) e Irmãs Diabólicas (Direita)

O uso do duplo cinematográfico é bem forte, principalmente na sequência que mostra a cena do crime sendo limpa pelos envolvidos e a chegada da polícia com a jornalista. Uma tensão que aumenta de forma frenética os efeitos de uma montagem paralela. Em ambos os filmes, inicialmente parece que sabemos o verdadeiro culpado (a), todavia, as duplicações nos levam para um labirinto cheio de possíveis leituras. Por isso, nos surpreendemos com o trabalho pulsante desse diretor que vive fazendo sua “Nova Hollywood”. Mais uma vez nos deparamos com gêmeas permeando a história tanto na produção de 1973 quanto na de 2012.

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Nunca sabemos totalmente o que é verdade ou mentira no cinema De Palma. Além de seu maneirismo com a câmera, a obsessão, a loucura e a insanidade representam uma constante. Em Passion, o desfecho é feito por uma smartphone, um novo olhar sobre o o mesmo fato. O surgimento de uma personagem sela um impasse no final, deixando o filme aberto. O desenlace de Irmãs Diabólicas coloca o filme dentro de outro filme e deixa marcas profundas na mente de Grace. Os longas se fundamentam em uma linguagem que constrói e destrói até achar o melhor ponto de vista. Não existe uma cura, o terror psicológico acompanha os personagens e o público após o fim, a obra desse cineasta não termina em si mesmo, continua desbravando em nossa cabeça.

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