VERTIGO E TRAGÉDIA OBSESSÃO

Jimmy Stewart Vertigo

Uma fotografia permeada de um nevoeiro que deixa a trama com cara de um sonho ou até mesmo um pesadelo, a busca incessante pelo verossímil, um filme sobre representações, onde o protagonista projeta uma realidade que deseja reconstruir o seu passado, uma segunda chance, uma mistura doentia e obsessiva pela plenitude entre a luz e trevas. Basicamente esse é o enredo de Um Corpo que Cai (1958), de Alfred Hitchcock, além da releitura sob a batuta de Brian De Palma que leva o nome de Trágica Obsessão (1976), obra-prima do diretor.

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Vertigo transforma o detetive aposentado John ‘Scottie’ Ferguson (James Stewart) de um homem íntegro a um homem insano com suas obsessões em volta de Madeleine Elster (Kim Novak). Uma mulher pela qual ele se apaixonou e não pode não pode salvá-la em virtude de sua fobia por altura. Ato que também foi responsável pela morte de um policial logo na primeira sequência do longa.obsessionNa obra de Brian De Palma, um empresário bem sucedido de Nova Orleans, Michael Courtland (Cliff Robertson) tem sua vida destruída quando a filha e a esposa são sequestradas e assassinadas no dia do seu décimo aniversário de casamento. O erro do personagem foi tentar resolver o caso enganando os criminosos, o que culminou em uma tragédia.

A cena final de Um Corpo que Cai ainda demonstra um teor de estranhamento. Scottie viu a oportunidade de refazer o seu passado, mas as circunstâncias o transformam em um executor inconsciente do caos. Kim Novak cai de uma torre no “tempo errado”, como se um músico errasse a nota em uma partitura musical. É brusco como se desencadeia a cena, a câmera se afasta reprimindo o comportamento daquele homem considerado íntegro. O voyeurismo hitchcockiano elevado às últimas consequências, com traços de necrofilia, de uma mulher que realmente voltou do mundo dos mortos.

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Já Michael Courtland revê sua nova oportunidade nascer em uma igreja em floresça, onde se apaixona de cara por uma jovem que é a cara de sua esposa falecida. Sandra (Geneviève Bujold) está em um palco e restaura uma pintura, colocando uma nova camada em outra antiga do quadro. Ela representa e fará a mesma “restauração” na vida do papel de Cliff Robertson.

O protagonista só deseja desfrutar desse momento, mais uma vez o voyeurismo  aparece ao perseguir a garota desconhecida pelas ruas italianas. O dilema retorna no dia da cerimônia de seu novo casamento, o destino lhe apresenta a mesma situação cabal. Desta vez, Michael não quer repetir o erro do passado, até descobrir que sua futura mulher é sua própria filha, que não morreu na tragédia de anos atrás. A possível relação incestuosa causa uma sensação equivalente a do homem que queria se deitar com uma mulher falecida.

A cena final é um dos ápices, uma montagem paralela constrói o reencontro de pai e filha, um enlouquecido pela armadilha e a outra arrependida. Quando se espera uma tragédia no nível de Vertigo, o travelling circular nos envia para outro lugar. Vale destacar o trabalho de câmera, única recurso utilizado na tensão crescente, sequer um diálogo.

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Gavin Elster (Tom Helmore) em Vertigo e Bob Lasalle (John Lithgow) em Trágica Obsessão funcionam como uma espécie de Judas, pois são os amigos traidores dos protagonistas e foram os responsáveis pela trama que os perseguiram por tanto tempo. 

Tanto Hitchcock como De Palma colocam em prática as loucuras de seus personagens, homens que procuram moldar o futuro para recompensar o passado e que caminham pela dualidade entre o bem e o mal. Neuras que os acompanham em decorrência de serem os falsos culpados. Ambos os diretores são amantes das imagens, recurso primordial no cinema da dupla, que não abria mão da música impecável de Bernard Herrmann.

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