DUBLÊ DE CORPO

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Imagem2doblecuerpo8403You can’t believe everything you see ou Nunca acredite em tudo que se vê. Essa frase sintetiza a obra como um todo de Brian De Palma. Suas tramas estão em volta de tantas camadas que muitas vezes caímos em um labirinto e somos forçados a reunir todas as peças para sair dele. O impasse dessa vez fica por conta de Dublê de Corpo (1984), onde o diretor flerta mais uma vez com Alfred Hitchcock e também martela a indústria de Hollywood sem dó nem piedade.

Jake Scully (Craig Wasson) é um ator frustrado, correndo atrás de testes e nunca se encaixa no mundo encantado de Hollywood. Após flagrar a namorada com outro homem, ele precisa encontrar um novo lugar para morar. Em sua nova casa temporária, descobre uma vizinha que tira a roupa em frente à janela todas as noites, sempre no mesmo horário. O personagem fica mais obcecado pela misteriosa mulher e começa a investigar a sua vida, se envolvendo em uma trama que é bem mais do que parece.bdouble-vampireLogo na primeira sequência nos deparamos com uma representação, mais uma vez o diretor nos engana e coloca o público em um filme dentro do próprio filme. O ator claustrofóbico não consegue interpretar um vampiro dentro de um caixão. Logo de cara é evidenciado o pragmatismo e as mentiras dos estúdios que somente pensam em si e em mais ninguém.

Scully está em Hollywood, porém o brinde em homenagem a essa cidade é amargo, diferente do glamour que é vendido nos panfletos publicitários. Quando sua vida estava desmoronando, eis que um novo amigo Sam Bouchard (Gregg Henry) aparece e até oferece um apartamento passar um tempo. Um lugar perfeito, cercado de luxo e com uma vizinha misteriosa.

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Da mesma forma que L.B. Jeffries constrói uma realidade por meio de sua observação em Janela Indiscreta, Jake fica seduzido pela sensualidade daquela mulher estranha. Ambos os longas se desenvolvem como se fossem um filme mudo, totalmente aberto a interpretações. Característica que continua em uma perseguição de tirar o fôlego, onde o trabalho da imagem é crucial na sequência do shopping, o diálogo fica em segundo plano, a ideia da pura expressão cinematográfica é elevada a máxima potência. Em um dos ápices o protagonista vai à loucura quando uma tragédia começa a montar em sua frente. Uma cena bem semelhante à de Lisa Carol Fremont (Grace Kelly) no clássico de Alfred Hitchcock. Ela fica presa no apartamento junto com o suspeito de assassinato e é apenas observada pelo aflito James Stewart.

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A claustrofobia de Scully é um problema parecido com a vertigem de Scottie em Vertigo. Os dois personagens se sentem culpado pela tragédia que os perseguiram, todavia não foram colocados nesta situação pelo destino. Eles foram escolhidos para se tornarem culpados inconscientemente.

Nesse exato momento que a frase Nunca acredite em tudo que se vê sela a trama. Jake acaba descontruindo a realidade que se transformou por meio de seu telescópio. Holly Body (Melanie Griffith) é a peça chave nessa questão e o protagonista vai ao cinema pornô para descobrir a verdade.

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A indústria de cinema ganha ainda mais críticas: no clássico longa adulto da personagem de Melanie Griffith que leva o nome de Holly Does Hollywood ou quando ela esbraveja sua ira falando mal de diretores e dos estúdios do mercado cinematográfico pornô. Contudo, se tratando de um trabalho do diretor Brian De Palma, esse sentido pode ser expandido para Hollywood.

Existe até uma citação de Crepúsculo dos Deuses. Em meio a uma gravação de filme adulto, Jake passa por uma atriz que está na mesma posição de Norma Desmond (Gloria Swanson) na cena final de uma das obras primas de Billy Wilder. No original, a tomada traz Erich von Stroheim atuando como diretor (Ele vive o mordomo no decorrer da trama) e a protagonista se prepara para sua última encenação, cheia de gestos exagerados, descendo as escadas até entrar em seu próprio mundo. Uma reflexão sobre o cinema em 1950 que Brian de Palma continua, só que da sua maneira. Será que os filmes ficaram pequenos mesmo como diria Norma?

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A duplicação com jogo de espelhos, o travelling circular combinado com uma bela fusão de imagens, De Palma mostra todo o poderio de seu arsenal cinematográfico em um videoclipe que insere o protagonista na música Relax da banda Frankie Goes to Hollywood. O diretor pode se dar ao luxo de sair da narração principal, voltar logo depois e não perder nenhum sentindo, nem força em sua concepção. A trama termina como começou, nos colocando no filme dentro do filme, revelando a manipulação, o que está além de tudo que se vê. Como um ciclo de Hollywood.

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