OS IMPERDOÁVEIS SAMURAIS

Imagem1unforgiven_1992_495x749_501534O clássico filme de 1992 do mestre Clint Eastwood coloca uma pedra sobre um dos maiores gêneros do cinema: o Western.  A partir da história William Munny, ser um pistoleiro do Velho Oeste nunca mais foi sinônimo de status, matar nunca foi tão difícil, um filme revisionista que selou o destino de todo um estilo ao desconstruir e reconstruir um gênero. Essa característica também pode ser estendida para os chambaras, ou seja, os filmes de samurais. Yojimbo (1961), de Akira Kurosawa, Harakiri (1962) e Rebelião (1967), ambos de Masaki Kobayashi, são longas que trazem questionamentos sobre a missão e a vida que envolve todo o legado de um ronin.

3lEm Yojimbo, um samurai desempregado (Toshirô Mifune) chega a uma cidade à procura de um trabalho, porém só encontra um vilarejo dividido por duas gangues. O protagonista oferece os seus serviços para ambos e aproveita de sua astúcia para tirar proveito totalmente da situação.

É um homem sem nome, sem clã, sem a obrigatoriedade de servir a nenhum senhor feudal. Faz amizade com os menos afortunados, aquela imponência dos samurais é deixada de lado. Um dos momentos mais simbólicos é quando o personagem do grande Toshirô Mifune cria um duelo entre os dois lados e é enquadrado como um mero espectador, só esperando o circo colocar fogo.

yojimbo-el-mercenario-1506961018 yojimbo-crop-2O longa do mestre Kurosawa serviu como base para Sergio Leone fazer o primeiro filmeeastwood da trilogia dos dólares com Clint Eastwood. Os protagonistas dos dois filmes são idênticos e usam a inteligência para enganar dois grupos rivais. A diferença é que um utiliza uma espada e outro uma pistola. A economia de palavras, o corte seco e os closes para demonstrar a atmosfera dos personagens, a violência, o vento das cidadelas abandonadas, tudo está ali.

1369236450174Masaki Kobayashi é outro especialista em fazer obras primas, Harakiri é uma delas. A trama se passa no século XVII, o Japão não está mais em guerra e o país é administrado com firmeza. Hanshiro Tsugumo (Tatsuya Nakadai), um samurai desempregado, bate à porta da poderosa dinastia Ii. Recebido por Kageyu Saitô (Rentarô Mikuni), o diretor do clã, Tsugumo lhe pede permissão de cometer suicídio por harakiri em sua residência. Na tentativa de dissuadi-lo, Saitô lhe conta a história de Motome Chijiwa (Akira Ishihama), um antigo samurai que desejava cumprir o mesmo ritual.Harakiri.1962.REPACK.1080p.BluRay.x264-CiNEFiLE.mkv_snapshot_00.01.16_[2011.11.21_22.57.15]

O filme mostra que os samurais não tem serventia em tempos de paz, só lhe restam morrer com dignidade por meio do ritual milenar. A câmera ao focar na armadura do clã revela a dimensão do sagrado. Por meio de flashbacks, Hanshiro Tsugumo vai descontruindo o mito que envolve toda essa sacralidade e revela o profano. A tensão é crescente e gera uma dilatação do tempo, ainda mais quando o diretor suprime a ação nos momentos vitais dos duelos que ocorrem na história narrada. É um corte seco como a ação da própria espada do samurai.

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Espada, a alma de um samurai, todavia o personagem de Tatsuya Nakadai revela que esse orgulho e importância caíram por terra. Uma espada de bambu tem o mesmo valor que a de um exímio samurai. Os clãs estão falindo e alimentam o sagrado somente para justificar o próprio sentido de existir.

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Uma remake do clássico foi dirigido pelo insano Takashi Miike em 2011, apesar da bela fotografia, o longa não tem a mesma profundidade que a obra de 1962. O diretor, conhecido pela sua miscelânea, trabalha com um visual mais limpo e com a brutalidade de sempre de seus personagens.

pDijiNjS6GNZsJJpKYrJT3SI3RrSamurai-Rebellion-196755612622516228251Rebelião também se passa em uma época de um Japão que se encontra em paz, o que faz se perguntar qual é o papel do samurai. Isaburo Sasahara se revolta com o senhor feudal ao saber que ele reivindica a mulher (Ichi Sasahara) do seu próprio filho (Yogoro Sasahara).

Isaburo é um tipo de personagem que foge as regras dos homens da época. Não tem aquele teor machista em suas atitudes e se revolta contra a tirania. Sua nora é fora dos padrões de pureza e sua esposa é a autoritária da casa. Todavia, o que guia suas atitudes é o amor de seu filho por Ichi e vice-versa. Está cansado de toda a ditadura que sofreu toda a vida.

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Como Harakiri, a ação e os duelos entre os personagens ficam em segundo plano. A tensão e os questionamentos enriquecem a história. Um dos momento mais significativos envolve uma conversa do trio (Isaburo, Yogoro e Ichi) que está sob pressão para tomar uma decisão. A câmera enquadra uma dor que está explicito em cada personagem, principalmente na mulher. A cena de Ichi se rebelando em frente ao senhor feudal foge dos hábitos do Japão na época. Uma mulher que responde aos atos sofridos, diferentemente das mulheres de Keiji Mizoguchi.

O poder de interpretação de Toshirô Mifune mais uma vez é um dos destaques. Quando enfrenta samurais que surgem na escuridão de sua casa ou quando decide partir para Edo para denunciar o abuso do senhor feudal. A obsessão, o carinho pela neta ainda de colo, a dor dos sofrimentos causados pelos inimigos, tudo vira uma coisa só quando resolve dar a última cartada. As panorâmicas e as belas paisagens representam um contraste com o caos em cena.

Os três clássicos mantêm o status de obras-primas ainda hoje por extrapolarem o sentido de suas histórias e focarem nos dilemas humanos. São filmes que selam o destino dos samurais no cinema, assim como Os Imperdoáveis para o faroeste.

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2 respostas em “OS IMPERDOÁVEIS SAMURAIS

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