WHITE DOG

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É difícil fazer cinema sem cair em tons didáticos e moralistas ao tratar de um assunto polêmico, a maioria dos longas do gênero acabam pisando em ovos e resultam no clichê e apelam para emoção e perdem no teor cinematográfico. Cão Branco, do mestre Samuel Fuller, foge a esses padrões, por martelar em um tema complicado para a história americana: o racismo. Apesar de ser um dos ápices da filmografia do diretor, hite Dog (1982) foi mal recebido e complicou ainda mais a carreira desse ícone no academismo de Hollywood.

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Na trama, Julie Sawyer (Kristy McNichol), uma jovem aspirante a atriz encontra um cão branco perdido na rua e resolve adotá-lo. Ela aos poucos percebe que se trata de um animal treinado para atacar pessoas negras (a exemplo dos ‘cães brancos’ da África do Sul). Ao perceber o comportamento racista do cachorro, ela o entrega a Keys (Paul Winfield), um treinador de animais, um negro, para tentar reeducar o animal.

Na época da Guerra de Secessão, os westerns focavam esse tipo de perseguição por meio de linchamentos e as batalhas principalmente dos estados do Sul para continuar no regime de escravos. O cão branco é uma continuação desses tempos, um resquício do Apartheid que usava esses animais para perseguir negros.

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O cão adquire um ar sagrado com sua brancura intensificada, entretanto o sangue em seus pelos demonstram que o animal tem origens profanas na verdade. A câmera diz tudo no cinema de Fuller na apresentação do herói negro Keys (Paul Winfield) que tenta acabar com condicionamento racista do animal; ou quando um garoto é quase atacado por questões de segundo. O plano coloca a criança negra e o cão na mesma imagem, no exato momento em que poderia iniciar o ataque ao menino, ele entra por uma porta após receber um puxão repentino da mãe.

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A mesma sorte não tem um homem na cena seguinte, quando precisa correr loucamente para fugir do cão enfurecido. A perseguição só termina em uma igreja, o corte seco na hora do ataque e as testemunhas são somente a figura de dois santos de gesso. Puro silêncio, pura imagem, puro cinema. O movimento brusco de câmera também serve para apresentar o verdadeiro dono do cachorro, responsável pelo seu treinamento racial.

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O travelling circular no final é uma aula de cinema. A câmera alterna entre a calmaria e a selvageria do animal no momento exato para ver se o tratamento da cura deu certo. Somos enganados pelo clima positivo e inquieto ao mesmo tempo, uma ação que termina na loucura e insanidade, um circulo vicioso, uma cena que evidencia as feridas profundas de uma humanidade envenenada pela segregação racial. Um crítica feroz que não foi entendida pela academia na época.

Fuller foi obrigado a sair do eixo hollywoodiano, seu próximo longa Ladrões do Amanhecer (Voleurs de la Nuit, Les, 1984) é uma produção mais europeia. Na história, François e Isabelle se conhecem em um escritório para procurar emprego. Os dois são da arte, ele violoncelista e ela, historiadora de arte. São dois personagens que não se encaixam no mundo padronizado, como Samuel Fuller. São como Bonnie e Clyde, como se autodenominam, o que o mundo não consegue entender, acaba excluindo. Isso aconteceu com esse mestre do cinema! Na verdade, Cão Branco é uma obra prima e visceral, isso é Fuller!

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