CINEMA JAPONÊS NA LIBERDADE

cinema-japones-na-liberdade1De vez em quando, uma mostra de um diretor japonês acaba rolando, ou o contato com esse cinema se dá por meio de alguns DVDs que estão ganhando força no mercado.  Um repertório que andava escasso em nosso país. Por incrível que pareça,  São Paulo já teve a maior concentração de filmes japoneses no Ocidente. Reflexo da forte colonização que iniciou no começo do século XX.  Todo esse universo é abordado de maneira histórica e acadêmica em Cinema Japonês na Liberdade, de Alexandre Kishimoto.

rashomon

cinema-japones-altaRashomon e Os Setes Samurais (Akira Kurosawa), Contos da Lua Vaga (Kenji Mizoguchi), Rebelião, Guerra e Humanidade, Harakiri (Masaki Kobayashi), Musashi (Tanto a versão de Tomu Uchida e Hideo Gosha), sem contar obras de Eizo Sugawa   e Yasujiro Ozu, entre outros muitos clássicos que tiveram a oportunidade de estrear em tela grande na capital paulista. Quando o mundo inteiro vangloriava um ou outro filme japonês, São Paulo já tinha um circuito mais do que consolidado. Conferindo a força desse cinema no Brasil,  estúdios como a Toho, Nikkatsu, Shochiku tiveram sede na cidade.  Cada um mantinha seus clássicos em salas fixas como Cine Jóia,  Cine Niteroi, Cine Tokyo (Cine Nikkatsu), Cine Nippon. 

A exibição dos longas não iniciou de cara nos cinemas,  as primeiras ocorreram de forma improvisada e ambulante, principalmente pelo interior de São Paulo. Era uma forma de o imigrante relembrar de sua terra após trabalhar o dia inteiro na área agrícola. Esse sentimento de nostalgia foi transportado pelas salas da Liberdade que reuniam mais de mil pessoas em uma sessão. O autor entrevistou vários personagens dessa época: profissionais ligados a estúdios,  jornalistas,  críticos e expectadores. Definitivamente,  ir ao cinema era um verdadeiro culto.

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Outro resultado dessa iniciativa foi formação de uma cinefilia voltada para  apreciar o cinema japonês, sem contar com  a influência em diretores do cinema paulistano.  O grande Carlão Reichenbach  é um deles.

Ugetsu_monogatari_12Esse repertório vasto enfrentou dificuldades e perseguições durante o período da Segunda Guerra,  o Japão era um dos países do eixo e o Brasil estava ao lado dos aliados. Consequentemente,  não só o cinema, mas toda relação social que envolvia japoneses foi afetada.

O apogeu dessa cinefilia nas salas da Liberdade ocorreu no década de 50 e início da década de 60. O declínio veio com longas voltados para o público jovem, outro fator foi uma lei na época da ditadura que obrigou a programação dos cinemas terem uma boa porcentagem com filmes nacionais. Essas ações resultaram em um enfraquecimento nas exibições. Hoje, restaram histórias e, uma vez ou outra, uma mostra consegue resgatar essas obras e esgotar ingressos assim como nos tempos áureos.

musashi

(…) Do início dos anos 1950 até o final da década de 1980, um conjunto de salas de cinema de rua localizado no bairro paulistano da Liberdade exibiu quase exclusivamente filmes japoneses para um público formado majoritariamente por japoneses e nikkeis residentes no estado de São Paulo, mas também por estudantes, artistas e intelectuais não nikkeis (…)

Com o sucesso das primeiras sessões no pós-guerra surgem outras companhias importadoras e distribuidoras de filmes  (Nanbei Kogyo, Brasias, Nichiei, Cine Asia, etc.), que além  de alimentarem a programação das redes de projeções ambulantes pelo interior paulista também viabilizam a realização de sessões de filmes japoneses em salas de cinema já estabelecidas na cidade de São Paulo, além do Cine São Francisco: na Sala Azul do Cine Odeon e no Cine Paramount (Edna Kobori, 1997).

Em artigo publicado em 8 de fevereiro de 1956 no jornal O Estado de S. Paulo por ocasião da exibição no Cine Ipiranga do filme Shichinin no Samurai [Os Setes Samurais, 1954], de Akira Kurosawa, o crítico de cinema Francisco de Almeida Salles (“Os Sete Samurais”, 1988, p.183) comenta: “Só em 1939 e 1940, seis películas japonesas foram lançadas em cinemas centrais de primeira linha, o Rosário e o Broadway. Tal fato só foi repetido em 1952, com a exibição de Rashomon (1050, Akira Kurosawa) no Cine Ipiranga”.

O início do reconhecimento internacional do cinema japonês depois da conquista de prêmios em festivais, a reativação das projeções ambulantes no estado de São Paulo, a proliferação de empresas distribuidoras de películas do Japão e a procura pelas sessões de filmes japoneses nos cinemas da capital anunciavam um ambiente favorável ao aparecimento de uma sala de cinema com uma programação constituída apenas por filmes japoneses.

160-Pai e Filha

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