GERALDINE CHAPLIN

1803Geraldine Chaplin desembarcou feliz em São Paulo. Ela vai receber o Prêmio Humanidade da Mostra e apresentar o filme que encerra o festival, o dominicano Dólares de Areia, de Amélia Guzman e Israel Cárdenas. No filme, Geraldine interpreta Anne, uma mulher rica que mora na República Dominicana e se apaixona por uma jovem garota de programa chamada Noelí.

Geraldine também tem outras conexões importantes com a Mostra. Ela atuou em Fale Com Ela (2002), sua única colaboração com Pedro Almodóvar, filme no qual o diretor tirou a foto que ilustra a arte deste ano. Seu pai, Charles Chaplin, também é homenageado pelo centenário de seu personagem mais famoso, Carlitos, com a exibição ao ar livre de O Circo (1928), no Auditório Ibirapuera.

Quando Geraldine nasceu, o personagem de Carlitos já estava “aposentado”. Ela começou a carreira no cinema quando seu pai a incluiu com um papel pequeno no filme Luzes da Ribalta (1952). Depois, veio o sucesso de Doutor Jivago (1965), de David Lean, e colaborações marcantes com o espanhol Carlos Saura, seu companheiro por 13 anos, e com o americano Robert Altman, entre muitos outros.

Hoje, aos 70 anos e cheia de vitalidade, ela ainda roda de três a quatro filmes por ano em diferentes idiomas.

Você já conhecia o trabalho de Laura Amélia Guzman e Israel Cárdenas antes de entrar no filme?

Sim, eu vi um filme deles chamado Jean Gentil (2010, 34ª Mostra) em Lima e me impressionou muito. Ficou comigo. Chorava ainda meses depois, lembrando daquele personagem, achei o filme lindo e extraordinário. Eles souberam que falei isso e tinham um projeto baseado num livro meio autobiográfico de Jean-Noël Pancrazi chamado Les dollars des sables. Era a história de um homem mais velho europeu com um jovem garoto dominicano. Eles o adaptaram para o filme como uma mulher se apaixonando por uma garota e me pediram para fazer.

Você leu o livro? Se inspirou nele de alguma forma para interpretar Anne?

Eu o li. Segui as orientações dos diretores, mas o livro tem um olhar não moralizante sobre como é uma relação baseada em dinheiro quando uma pessoa de 70 anos deseja outra de 20. Os de 20 não vão se apaixonar por você. O dinheiro não pode comprar amor, mas compra ilusões.

Você divide muito tempo de cena com Yanet Mojica, uma iniciante. Como foi trabalhar com ela?

No começo foi bem difícil, porque ela não é atriz e não entendeu bem o que estava acontecendo. Foi uma boa aposta da Laura e do Israel chama-la. Podia ter funcionado ou não. Ela realmente tem um futuro porque entendeu bem rápido o trabalho.

Vocês prepararam as cenas de amor, ou era algo que foi improvisado no set?

Tínhamos liberdade. Não foi coreografado ou realmente preparado, então demos muitos beijos roubados. Acho que foi legal não ter mesmo cenas de sexo, porque daí seria fácil. Os diretores foram por um caminho sem julgamento, um caminho honesto e pragmático. O que eu amo sobre o filme é que ele fica no meio termo entre o amor e o abuso dos dois lados. As duas personagens têm poder: uma tem o dinheiro e a outra, a juventude.

Vamos falar um pouco sobre seus filmes com Carlos Saura, como “Ana e os Lobos” (1973) e “Peppermint Frappé” (1967). Como você vê este período de sua carreira em perspectiva?

Foi um período extraordinário. Não vejo estes filmes faz tempo, mas revi recentemente o Cria Cuervos (1976). É fantástico, e não perdeu nada com o tempo. O engraçado é que na Alemanha, Ana e os Lobos é o meu filme mais lembrado com Carlos. Adoraria rever, porque foi o filme em que ele disse: “Estou tão cansado de todos falarem que meus filmes são uma metáfora para isso e aquilo. Vou fazer uma metáfora de verdade! Vou enfiar goela abaixo. A pátria, a Igreja!” Peppermint Frappé foi meu primeiro com ele, faz tempo que não vejo. Eu cheguei a pedir uma cópia para Elías Querejeta, que já morreu, e recebi uma cópia danificada muito ruim. Que bom que ele foi restaurado recentemente.

Você também colaborou com Robert Altman em “Nashville” (1975), “Oeste Selvagem” (1976) e “Cerimônia de Casamento” (1978). Os filmes tinham elencos imensos, muitos em cenas diferentes, e nem todo mundo contracenava junto. Você interagiu com todos os atores?

Sim, nós morávamos juntos. Acho que este era o segredo: a gente se amava. A gente ficava em bangalôs e o Altman ficava uma casa enorme. Ele era o rei! [risos] Ele também era um espectador fantástico. Víamos ele por trás da câmera, e ele amava tudo que nós estávamos fazendo. Tinha muita energia.

Você acabou de filmar com dois amigos da Mostra: o canadense Guy Maddin em “Spiritismes” e o alemão Wolfgang Becker em “Eu e Kaminski”. Como foi trabalhar com eles?

Com Guy foi completamente louco. Ele tinha este projeto de reencenar cem filmes perdidos da história do cinema. No começo, não havia ninguém, só os amigos dele, assim foi entrando Maria de Medeiros, Isabella Rossellini, Charlotte Rampling e daí partiu. Ele pegou um monte de atores para reencenar os filmes no Centro Pompidou. Saiu ectoplasma, ficamos em transe e fizemos os filmes. Recebemos um e-mail de Guy Maddin recentemente dizendo que para financiar este projeto de internet, tinha que fazer um filme sobre as 17 performances que fizemos em Pompidou. Ele disse: “Não era minha intenção fazer um filme, mas é o melhor filme que eu já fiz” [risos]. Já o do Wolfgang Becker, eu saio daqui para ir até a Alemanha e gravar o áudio de pós-produção do filme. Eu interpreto o grande amor de Manuel Kaminski, que ele não vê a anos e agora mora em outro lugar. É um roteiro lindo e Daniel Brühl é ótimo. Quanto ao Becker, nunca trabalhei com um diretor tão perfeccionista.

A Mostra está celebrando o centenário de Carlitos com a exibição de O Circo (1928) ao ar livre. Como foi celebrar o centenário pelo mundo?

Foi muito bom porque onde quer que eu vá, ele também está. Eu não sabia que ele estava aqui. Cheguei aqui e me informaram que exibiriam O Circo. Fiquei feliz! É o meu pai! Os filmes dele têm sido exibidos com orquestras ao vivo. Não é seu filme mais conhecido, mas é muito bonito.

Com todos estes filmes seus rodados na América Latina, você gostaria de filmar no Brasil?

Pode apostar que sim!

Francisco Pedro e Thiago Stivaletti

*Texto retirado integralmente do site oficial

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