SÃO PAULO S/A

São Paulo SA2O longa de Luis Sergio Person de 1965 poderia ser somente um filme que retrata o nascimento do maior polo industrial econômico do Brasil. Todavia, a obra é muito mais que isso, é um reflexão sobre a cidade e as pessoas que estão ao redor dela simbolizada na amargura no protagonista de Walmor Chagas.

A trama se passa em São Paulo, entre 1957 e 1961, e mostra a trajetória de Carlos, que pertence à classe média. Guiando-se pelas chances imediatas que lhe são dadas pela sociedade, ele ingressa em uma grande empresa. Depois aceita um cargo em uma fábrica de autopeças, da qual se torna gerente. A certa altura se vê na pele de um chefe de família, que trabalha muito, ganha bem, mas vive insatisfeito.

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são paulo sociedade anônimaLogo no início filme somos brindados com um travelling circular, onde literalmente a cidade impositora vê os seus personagens, sobretudo Carlos e Luciana (Eva Wilma). São Paulo é mais forte, por isso essa dissolução da sociedade, um caráter semelhante aos longos de Yasujiro Ozu que já mostrava essas mesmas características na população japonesa.

As atitudes insanas de Carlos também dialogam com a vivacidade de Samuel Fuller, o protagonista representa a pura solidão, que é maquiada em meio à multidão de gente e aos carros estacionados. Ele não se encaixa na ordem capitalista, suas ações tentam de verdade entender a questão da carreira e o casamento. Mas não bate e não lhe satisfaz.

Arturo Carrari (Otelo Zelloni), o imigrante italiano que próspera rapidamente no ramo de autopeças, é considerado um dos exemplos dessa hierarquia imposta na realidade atual. Um modelo com seus jeitinhos e gambiarras que Carlos não entende, daí sua indignação.

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Outra influência forte do cinema japonês foi identificada pelo crítico Jairo Ferreira no Estadão em 1988:

“A selva de prédios da cidade de São Paulo está sempre ao fundo de São Paulo S/A. A ação se passa entre 1957 e 1961, durante o “boom” da indústria automobilística, sempre do ponto de vista do jovem Carlos (Walmor Chagas) da classe média com suas inquietações sociais e existenciais. Consegue um bom emprego, briga com a namorada, vive insatisfeito e resolve escapar do sufoco. Mas volta para “recomeçar… recomeçar… recomeçar”. Essa trajetória lembra um filme japonês, Liberdade sem esperança, de Eizo Sugawa, cujo niilismo influenciou Person em seu filme”.

A desilusão de Carlos, vestido sempre com aquele terno, lembra muita a atmosfera de Michel (Martin LaSalle) em Pickpocket (1959), de Robert Bresson. O trabalho de Person conseguiu diagnosticar a desvalorização e a morte do sentido, a ausência de finalidade, a doença da maior metrópole do país na década de 60. Um comportamento autodestrutivo que é enxergado até como benéfico nos tempos contemporâneos.

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