O CLOSE UP DE KIAROSTAMI

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Quais os limites da realidade e ficção? O que é o cinema? Esses são os questionamentos quando estamos em frente a uma obra de Abbas Kiarostami. Um filme que precisa do expectador para se tornar completo, uma característica que colocou os cineastas um dos mais inventivos dos últimos trinta anos.  E um dos seus maiores trabalhos é ClosCloseUp_002e UP (1990).

A trama mostra a prisão de Hossein Sabzian, sob a acusação de que ele fingiu ser o cineasta conhecido Mohsen Makhmalbaf para a família Ahankhah. Mesclando uma impressionante investigação, de várias camadas, identidade, criação artística e existência, o filme mostra que a vida e o cinema, são uma coisa só.

closeup_2Hossein Sabzian não é um farsante, nem um homem disposto a dar um golpe como se parece à primeira vista. É humilde, sonhador e amante da sétima arte. Considera-se invisível, porém quando decidiu falar que era um diretor de cinema as coisas mudaram completamente, tudo o que pedia era atendido. Ele quer ser visto e respeitado. Parece que somente pessoas com uma hierarquia avançada conseguem tal feito na sociedade.

Kiarostami ao visitar Sabzian na prisão se coloca diante da câmera, estamos em uma trama que permeia os âmbitos do cinema ficção e documentário ao mesmo tempo. Em cena, estão pessoas que interpretam a si mesmas, o uso de atores não profissionais traça uma característica marcante do neorrealismo italiano, que procuravam trazer um novo aspecto do realismo e da veracidade para as telas.

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Com o decorrer das cenas, não sabemos quais foram rodadas no momento real e quais foram reencenadas. O diretor conseguiu abstrair toda essa fronteira. Um dos depoimentos mais marcantes nos extras do longa é quando Kiarostami revela que Sabzian teve dificuldades de voltar à casa da família Ahankhah para reviver o acontecimento, pois chegou lá como um diretor de cinema, todavia agora retornaria somente como um homem comum.

Somos colocados no julgamento do protagonista, a trama vai se desenrolando, onde descobrimos como a farsa se inicia. Temos toques de humor como um jornalista que deseja se apoderar da história e escrever uma reportagem épica, mas não é capaz de levar um gravador e decide tentar conseguir um via empréstimo.

Imagem1O personagem central é típico de Kiarostami. Eles são deslocados do resto mundo, como se procurassem o seu verdadeiro lugar. É assim com em Akiko (Rin Takanashi) em Um Alguém Apaixonado na procura de um acompanhante; ou o casal James Miller (William Shimell) e Elle (Juliete Binoche) numa trajetória que busca reencontrar algo perdido em Cópia Fiel; ou o engenheiro Behzad Dorani  que não revela o verdadeiro motivo de sua viagem em O Vento Nos Levará; ou na aventura de um garoto que precisa encontrar seu amigo para lhe entregar o caderno e não sofrer as consequências de um professor autoritário na obra-prima Onde Fica a Casa do Meu Amigo?

Hossein Sabzian até cita um dos filmes do diretor iraniano: The Traveler (1974), onde um menino – Qassem Julayi – faz o possível e o impossível para sair de uma pequena vila e assistir uma partida de futebol em Teerã. O estádio vazio e cheio de papel ao redor é digno do destino final de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) em Os Incompreendidos, de François Truffaut. Assim como o garoto, aquele iraniano que perambulava pela capital decidiu ir em busca de um sonho.

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A cena final de Close Up tem um tom de extrema sensibilidade. Com uma moto, o verdadeiro Mohsen Makhmalbaf e seu admirador vão rumo à casa da família Ahankhah. Como em Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, a flor é um milagre da amizade e, mais uma vez, Abbas Kiarostami faz um close up da vida, cria uma visão espelhada do mundo e mostra o que somos realmente.

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