SNIPER AMERICANO

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Primeiramente, como é assistir Clint Eastwood na telona. Ultimamente, o diretor tem sido mal distribuído no país e sofre com sessões com horários ruins, poucos cinemas e curto tempo em cartaz, além de ser obrigado até a dividir uma sala com o filme do Bob Esponja. O recente Jersey Boys não aguentou duas semanas no circuito comercial, por isso é preciso se apressar para conferir seu novo trabalho.

“Matar um homem é algo terrível, você tira tudo o que ele tem e o que ele poderia ter um dia”. A frase de Bill Munny na obra-prima Os Imperdoáveis sintetiza uma reflexão sobre a violência e ganha uma continuação a cada trabalho do diretor que permeia a história, sobretudo a americana. Como é o caso de Sniper Americano, e nesse post veremos os porquês.

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Adaptado do livro American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Militar History, a trama conta a história real de Chris Kyle (Bradley Cooper), um atirador de elite das forças especiais da marinha americana. Durante cerca de dez anos, ele matou mais de 150 pessoas confirmadas pelo Pentágono (Número pode ser maior: 255), tendo recebido diversas condecorações por sua atuação.

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Bradley Cooper usou e abusou de péssimos projetos em Hollywood, mas nada que uma mão experiente e coesa consegue mostrar suas qualidades como ator. É impressionante a proximidade física com o verdadeiro Chris Kyle. É uma pessoa que defende seu maior objetivo, proteger o seu país, não importa o que custar. Em determinados momentos o personagem parece um robô programado para soltar todos os clichês possíveis de um homem cão pastor do American Way of Life. Temos até um duelo típico de um western por meio de dois atiradores.

003As elipses dão um peso ainda maior para a carga narrativa, além do exímio trabalho de montagem. Vemos que a natureza de Kyle não foi construída somente no exército, desde pequeno conviveu em um ambiente totalmente texano, sulista, provavelmente escravista. Dirigia-se ao seu pai da mesma forma que tratava com os seus chefes da alta patente.

deerhunterbdcap3_originalSua insistente reação em dizer que está tudo bem vai a desencontro com suas expressões e reações. As pupilas dilatadas e a prontidão para agir contra qualquer imprevisto, a cabeça que não sai do Iraque, mesmo com sua família em um dia do cotidiano. O protagonista é como os jovens de Nascido Para Matar, de Stanley Kubrick, um cowboy que foi treinado para apertar o gatilho.

A atmosfera criada em torno de sua tensão pode ser comparada com O Franco-Atirador (The Deer Hunter), de Michael Cimino, onde os soldados escondiam suas preocupações em relação ao iminente conflito no Vietnã. Assim como Michael (Robert De Niro), Steven (John Savage) e Nick (Christopher Walken), a vida de Kyle nunca mais seria a mesma após a guerra.

Outras referências estão na filmografia de ninguém mesmo do que do próprio Clint Eastwood. Em Gran Torino (2009), Walt Kowalski tem uma bandeira americana em sua sacada, veterano da Guerra da Coreia e defende os mesmos valores que o Sniper Americano até perceber que patriotismo não leva a nada. Seu último ato revela que a violência não é a fonte de resolução para os problemas.

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A Conquista da Honra (2006) mostra que além da turnê para angariar créditos, os veteranos só possuem uma glória abstrata, restam apenas memória e precisam lutar na vida como qualquer outro. Em Dirty Harry (1976), com direção de Don Siegel, o personagem de Eastwood tortura o vilão Scorpio, uma atitude que próprio filme não compactua, existe um distanciamento da própria câmera condenando a ação.

O mesmo recurso é usado em Sniper Americano, o personagem Kyle enaltece o exército americano, mas o viés anti-guerra está ali nas relações destruídas, na pressão alta, na dor do olhar. É claro o distanciamento do filme. Mesmo saindo do Iraque fisicamente, o protagonista nunca saiu de lá mentalmente, fica mais tempo no centro de tiro com os veteranos do que com a própria família.

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Sua morte sai pela bala de uma arma de um americano, os EUA pode enxergar um patriotismo. Na verdade, o filme denuncia esse círculo vicioso bélico, o transtorno de estresse pós-traumático, o inimigo e o mal-estar estão dentro da própria casa. Clint Eastwood não trabalha com nenhum efeito propagandista, pelo contrário. Como diria a própria frase de Os Imperdoáveis que abriu o post, a guerra tirou tudo de Kyle, antes, durante e depois. Ele não morreu em campo do Texas, ele morreu ao pisar no Iraque.

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