2ª MITSP

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Com a 2ª MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, podemos dizer que finalmente a cidade de São Paulo tem um festival de teatro internacional consolidado. A edição desse ano trouxe produções de países como Rússia, Suíça, Alemanha, Inglaterra, Ucrânia, Holanda, Itália, Colômbia, Israel e Brasil. Muitos desses espetáculos lidam com o cinema de forma direta ou indireta, além de trazerem novas maneiras de fazer e enxergar teatro com a junção e a multiplicação de linguagens.

Miss Julie é um dos maiores destaques, a trama do grupo Schaubühne am lehniner platz  (Alemanha) é livremente inspirado na obra de August Strindberg, com direção de Katie Mitchell e Leo Warner.

A história clássica mostra a aristocrata Julia que se envolve com o servo Jean na cozinha do Solar, apesar da presença de Cristina, a noiva dele. Após consumarem o ato sexual, os papéis entre Julia e Jean invertem-se, e ele, o mais forte, convence-a a roubar dinheiro do pai.

MIT_SENHORITA-JULIA_CREDITO_Stephen_CummiskeyNa perspectiva cinematográfica forjada pela diretora Katie Mitchell com o teatro Schaubühne para o clássico de 1887, o ponto de vista narrativo altera-se, dando voz a Cristina. Mitchell e o codiretor Leo Warner, seu colaborador regular, reinventam o drama clássico com uma encenação multimídia, na qual convergem performance teatral, efeitos sonoros e filmagem ao vivo.

É como ver um filme de Ingmar Bergman, um cineasta que tinha um pé no teatro e um seguidor confesso de August Strindberg. A peça virou cinema, pois os momentos pregnantes se passam na tela. Todavia, é teatro também, pois a apresentação é ao vivo, atores e contrarregras desempenham suas milimetricamente calculadas para não deixar nenhum furo nessa mise-en-scène puramente cinematográfica. Pode se dizer que é um filme em um take só.

Em uma peça convencional, o primordial é o texto, porém esta montagem de Miss Julie se concentra na imagem. Uma das melhores performances que presenciei em um palco, som, água, closes, além das atuações totalmente orquestradas, cenas que revelam uma das belas simbioses entre as artes.

SDINGE__01211O grupo Theatre Vidy-Lausanne (Suíça) é encarregado de Stifters Dinge, um teatro sem atores, difícil captar, mas entendemos logo quando se inicia a apresentação. Este é um trabalho inspirado na obra de Adalbert Stifter e com direção de Heiner Goebbels.

Uma instalação incrível, cheia de significados, como se estivéssemos na nave de 2001 Uma Odisseia no Espaço, de  Stanley Kubrick. É uma típica ficção científica que coloca dilemas existenciais “De onde viemos? Pra onde vamos?”. A construção e a desconstrução de imagens impulsionam uma ligação cinematográfica com Árvore da Vida, de Terrence Malick.

MIT_WOYZECK_CREDITO_Vladimir_Lupovskoy_1Já o grupo Svoboda Zholdak Theatre traz Woyzeck, de Georg Büchner e direção de Andriy Zholdak, (Ucrânia). Um espetáculo que tem como linguagem principal a desconstrução do teatro e encontrar algo novo.

Temos uma leitura de um mundo em ebulição, rixas de Rússia e Ucrânia, questionamentos do próprio sentido de existir, a intolerância do estado. Tudo isso em uma mesma encenação que constrói um universo cyber punk, cheio de pontos de vista. O público escolhe o ângulo, às vezes a melhor perspectiva se encontra na projeção ao invés do palco com atores.  A apresentação é como uma montagem de um filme.

467028-970x600-1MIT_AS-IRMAS-MACALUSO_CREDITO-Carmine_MaringolaAs Irmãs Macaluso, do grupo Compagnia Sud Costa Occidentale (Itália), é mais convencional. Contudo, não menos competente. A trama revela a história de uma família formada por sete irmãs, Gina, Cetty, Maria, Katia, Lia, Pinuccia e Antonella, e encenada como uma espécie de cortejo macabro, que reevoca acontecimentos passados no núcleo familiar, recorrendo a memórias, sonhos, choros, risos, sacrifícios e revelações do que impede uns e outros de avançar.  Vida e morte mescladas inextricavelmente.

Temos a citação do jogador Diego Maradona, somos colocados na cidade de Nápoles, um dos lugares mais sofridos e cheios de injustiças sociais do mundo e da Itália. Vale ressaltar o trabalho físico dos atores, que mistura dança e uma interpretação performática. A luz dá um tom de mumificação aos personagens.

O enredo da vida de um povo sofrido na Itália da peça se assemelha ao longa Feios, Sujos e Malvados, de Ettore Scola. O filme traz Giacinto (Nino Manfredi), um homem que mora com a esposa, os dez filhos e vários parentes num barraco de uma favela de Roma. Todos querem roubar o dinheiro que ele ganhou do seguro, por ter perdido um olho quando trabalhava. A situação fica ainda pior quando ele decide levar uma amante para dentro de casa. Uma comédia de humor negro e com um teor social bem grande.

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