DILIGÊNCIA DE JOHN FORD PT 3

sunPELO SUL DOS ESTADOS UNIDOS

Pilgrimage-1933Rastros de Ódio (The Searchers, 1956) e O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962) são duas obras-primas do diretor, porém sua filmografia não se resume a esses dois trabalhos. O cineasta já evidenciava suas qualidades na época do cinema mudo, com o advento do cinema sonoro seus trabalhos foram atingindo novos patamares.

Em um processo de produção de grande escala, a década de 30 foi uma das mais primorosas para Ford. São longas que se dividem entre a dramaticidade e o lado cômico dos americanos do Sul, além de enfatizar características que marcariam seu cinema eternamente. Nesse post, Peregrinação (Pilgrimage, 1933), Juiz Priest (Judge Priest, 1934) – e por consequência O Sol Brilha na Imensidão (The Sun Shines Bright, 1953).

Retrospektive John Ford  *** Local Caption *** Pilgrimage, John Ford, USA, 1933, V'14, Retrospektive John FordEm Peregrinação (Pilgrimage, 1933), no início da I Guerra Mundial, os jovens Jim Jessop (Norman Foster) e Mary Saunders (Marian Nixon) se apaixonam em Three Cedars, Arkansas. Tomada de ciúme, a possessiva mãe do rapaz – Mrs. Hannah Jessop (Henrietta Crosman) – o envia à guerra para impedi-lo de se casar.

Mary é filmada de forma embelezada, sua face é espelhada na água. A natureza destaca a personagem e a mitifica. Já Hannah é o exemplo da família sulista que conquistou tudo por meio do trabalho duro na terra. Seu lado pragmático impulsiona sua decisão de mandar o seu filho pra longe.

pilgrim1A explosão das bombas no campo de batalha e a tempestade na casa dos Jessop mostram que os fatos estão ligados de alguma maneira, é prévia da notícia que chegaria em breve para a carrancuda personagem. O zig-zag da carroça com o carteiro vai pelo caminho como se atravessasse uma trincheira.

O plano em que a mãe para de tricotar é a representação pura de um plano com o aumento da carga dramática qu2752317121_7ce251ffb9_oe culmina em uma tentativa de união de uma foto do filho completamente em pedaços.

É impressionante como John Ford coloca gestos e expressões em um filme como as cores são escolhidas por um pintor na hora de fazer uma tela. Mrs. Jessop é colocada em circunstâncias de remediar a situação por meio de uma segunda chance. Porém, a melancolia nunca sumirá.

Judge-Priest-2Juiz Priest (Judge Priest, 1934)

É comum Ford virar sua câmera sempre para os considerados “perdedores”, amargurados. Em sua filmografia, exista uma vasta passagem pelo lado sulista americano, onde se tem um personagem que eternizaria os reflexos do cineasta: O Juiz Priest.judge-priest

Interpretado por Will Rogers, ele é o orgulho dos veteranos confederados e é juiz de uma pequena cidade de Kentucky em 1890. Com seu jeito despreocupado, costuma usar do seu bom senso e de considerável humanidade para sempre fazer a justiça valer. Ele ajuda seu sobrinho a se casar com a garota certa e também derruba uma ação judicial ilegal contra um inocente ferreiro. Um caso praticamente onde a culpabilidade era dada como certa.

AutoRemakes_Ford_MPOTWEm O Sol Brilha na Imensidão (The Sun Shines Bright, 1953), Priest ganha uma nova roupagem, dessa vez sob a interpretação de Charles Winninger. Mesmo com os trunfos do primeiro longa, o segundo coloca mais transcendência no êxito do papel do personagem.

10816362683_cd03c318b4_oQuando evita um linchamento de um negro acusado injustamente de um estupro (Situação semelhante em A Mocidade de LincolnYoung Mr. Lincoln, 1939 -), o Juiz Priest enfrenta uma multidão, faz um risco no chão e diz que pode usar até a força se for preciso. É o único que se mostra a favor de enterro digno de uma prostituta. O cortejo do funeral é um dos momentos mais belos da filmografia de Ford, uma alegoria até bíblica no sentido em que o protagonista questiona:

Quem nunca pecou que atire a primeira pedra!

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Um evento que seria somente com os marginalizados de pequena cidade do Kentucky, acaba se tornando um objetivo comum de todas as classes do vilarejo. É o enfrentamento da moral e dos bons costumes. Vale destacar nos dois filmes também o sentimentalismo da música Dixie, um dos produtos mais distintivamente americanos do século XIX. O nome da canção é uma região composta de vários estados do sul dos Estados Unidos. Sem contar a comicidade de Stepin Fetchit como Jeff Poindexter em ambas as produções.

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A cena final do longa de 1953 é digna de um herói pleno de Ford, simplesmente solitário, desaparece ao passar pelo corredor de sua casa, onde é enquadrado por duas portas abertas. Precisa de seu remédio (Uma bebida claro!) para aguentar as emoções de mais um dia cheio. Uma despedida no mesmo nível de Ethan Edwards em Rastros de Ódio.

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