DILIGÊNCIA DE JOHN FORD PT 4

SteamboatBendDrJohnGeoWashingtonWaxWorkHALFPoster_of_the_movie_Steamboat_Round_the_BendCONTINUANDO PELO SUL DOS ESTADOS UNIDOS

A comédia sempre ocupou lugar nos filmes de John Ford, é injetada onde for possível. Apesar do lado engraçado, tem sempre uma questão importante que permeia a história de seus personagens. Essas características estão em Nas Águas do Rio (Steamboat Round the Bend, 1935) e O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões (Prisoner of Shark Island, The, 1936). E também tem um bônus track: Quatro Homens e Uma Prece (Four Men and A Prayer, 1938), um longa que foge da estética do cineasta.

Nas Águas do Rio (Steamboat Round the Bend, 1935)

boatNa trama, Duke (John McGuire) mata um homem em legítima defesa, porém para provar sua inocência precisa que seu tio Dr. John Pearly (Will Rogers), um médico charlatão, entre em uma corrida de barco a vapor no Rio Mississippi e encontre a testemunha-chave que pode ajudar no caso: New Moses (Berton Churchill).

O personagem de Will Rogers é um legítimo herói fordiano. Faz o bem para a comunidade, mas se mantém solitário, celibatário, mediador de universos conflituosos e uma índole desconfiável, pois Pearly vive vendendo “Pocahontas Remedy”, uma espécie de elixir que promete acabar com todos os males.

SteamboatRoundBendRogersFrancisFordCapsComo sempre, o diretor sabe pintar os hábitos de uma região sulista de uma forma fiel. O longa tem cenas com própria autonomia, praticamente esquetes cômicos. O protagonista adquire o próprio barco The Claremore Queen com um museu de cera com várias personalidades históricas como George Washington, Napoleão. Nas sequências mais cômicas, não sabemos o que é boneco de cera ou personagem. O atores ficam parados como estátuas e de repente começam uma cena normalmente, ficando difícil distinguir o que é real e o que é somente cera. Vale destacar a presença sempre marcante e engraçada de Stepin Fetchit como Jonah.

A cena final mostra a tensão de vencer a corrida e chegar a tempo para trazer a testemunha e evitar o enforcamento. Mais uma vez, Ford faz uma reflexão sobre a história, onde os personagens utilizam uma espécie de combustível mitológico com a queima do museu de cera. As necessidades do porvir vêm através do passado ou ele tem que virar cinzas?

the-prisoner-of-shark-islandPoster - Prisoner of Shark Island, The_01O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões (Prisoner of Shark Island, The, 1936)

A admiração por Abraham Lincoln e a música Dixie já é evidenciada logo de cara com uma celebração do fim da Guerra de Secessão. Com o assassinato do Presidente Lincoln (Frank McGlynn Sr.), um homem aparece na porta do médico Samuel Mudd (Warner Baxter) pedindo por socorro no Kentucky.

O paciente é o assassino de Lincoln e, desconhecendo o fato, o protagonista o trata. Durante as investigações, evidências apontam para o envolvimento do médico no crime por conta do episódio, fato o sentencia à pena perpétua.

O filme perde a generosidade de Lincoln e ganha a intolerância dos responsáveis pela investigação e na cadeia com o Sargento Rankin (John Carradine).  A prisão é literalmente uma Ilha de Tubarões, fator que coloca praticamente a possibilidade de fuga inexistente.

The Prisoner of Shark IslandO dilema do homem errado, trabalhada constantemente por Alfred Hitchcock, dessa vez ganha os contornos de Ford. Algo que o protagonista faz e desencadeia uma tragédia, assim como Hannah Jessop (Henrietta Crosman) em Peregrinação (Pilgrimage, 1933).

O momento de redenção fica por conta do surto de uma doença na ilha. O enclausuramento, o esgotamento de suprimentos e a possibilidade de motim criam uma atmosfera perturbadora. Todavia, a salvação vem pelo homem que estava na solitária, sem julgamento e mágoas do tratamento sofrido anteriormente, Mudd coloca seu juramento na medicina em prática e salva os guardas assim como salvou o assassino do presidente.

Prisoner-of-Shark-Island-1A volta ao equilíbrio poderia ser perfeita para o médico. Como se trata em um filme de John Ford, existe uma espécie de falso Happy-End. Tudo o que o personagem sofreu nunca será apagado, o cansaço, a tristeza, a melancolia. Sua pequena filha e sua mulher Mrs. Peggy Mudd (Gloria Stuart) fazem um pacto para fingir e agir como se nada tivesse acontecido com aquele homem que retorna a sua casa no Kentucky.

four-men-and-a-prayer-screenshot-1FourMenandaPrayerLobbyQuatro Homens e Uma Prece (Four Men and A Prayer, 1938)

Um filme que foge bastante da estética do mestre John Ford. Os quatro irmãos ingleses Geoffrey Leigh (Richard Greene), Wyatt Leigh (George Sanders), Christopher Leigh (David Niven) e Rodney Leigh (William Henry) buscam saber a verdade sobre a exoneração no exército do seu pai Col. Loring Leigh (C. Aubrey Smith).

001-loretta-young-theredlistPara restaurar a honra do patriarca, eles passam por Índia, Egito e Argentina, onde vão encontrando pessoas e pistas para comprovar a verdade. O filme é um noir, onde um caso vai se construindo com a união das evidências, somos jogados em uma trama com mais perguntas do que respostas.

Saímos das histórias do Sul dos Estados Unidos para uma produção com mais cara de Hitchcock ou Fritz Lang, com a presença até de uma Femme Fatale: Miss Lynn Cherrington (Loretta Young). Mesmo com a tensão no enredo, o drama fica em segundo plano. A comédia toma conta da cena e é centrada no comportamento dos irmãos, talvez essa seja a particularidade de Ford mais explícita.

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