DILIGÊNCIA DE JOHN FORD PT 6

Young-Mr.-Lincoln-MobO ANO DE 1939: A MOCIDADE DE LINCOLN

Pode se dizer que os veteranos de Ao Rufar dos Tambores são ovacionados em uma marcha por ninguém menos do que Abraham Lincoln (Henry Fonda)  em A Mocidade de Lincoln (Young Mr. Lincoln, 1939). O lado patriota e a defesa da União são um corrente no trabalho de John Ford, mesmo retratando boa parte de suas histórias na América Sulista dos confederados.

A mocidade de Lincoln (1939)No clássico, vemos um Lincoln ainda no caminho de construir o seu lado mítico. Aqui, estamos diante de um homem comum, com uma aproximação mais forte das pessoas.  Com um modo tranquilo de conversar, expondo seu sentimento e honestidade em uma clareza de ideias, o personagem tem uma atitude contemplativa e simples na hora de se vestir e falar com todos ao seu redor. Ou quando visita o túmulo do primeiro amor de sua vida  Ann Rutledge. Tudo na pequena Nova Salem, Illinois, no ano de 1832. Atitudes que geram aproximação e cumplicidade.

A composição da imagem, onde sua figura sai da penumbra para a claridade, a centralidade nos planos, o contato com o conhecimento (Livros da época do processo de independência dos Estados Unidos), seu escritório é em meio à natureza, como se recebesse a sabedoria por meio da árvore que o acompanha em sua leitura. É um mediador do povo, uma espécie de Moisés dos dez mandamentos. Acompanhamos sua persona antes da figura mais conhecida como presidente e usando o típico chapelão.O filme mostra sua vida em Springfield, a nova capital do estado, e juntamente com o amigo John T. Stuart abre um escritório de advocacia. O foco é em seu primeiro caso como profissional, onde precisa defender os irmãos Matt Clay (Richard Cromwell) e Adam Clay (Eddie Quillan) de um suposto assassinato. Ambos se declaram culpados, como se um protegesse o outro. Uma situação em que a condenação à forca é praticamente dada como certa.

Apesar da complicada atmosfera, Lincoln permanece em seu mundo à parte, com as pernas para o ar, como se estivesse alinhando sua inteligência para defender os seus clientes e trazer à tona a verdade. O seu senso de humor e astúcia o ajudam a colocar em cena fatos que não estavam explícitos na acusação.Young-Mr-Lincoln

Um dos momentos mais simbólicos é quando o protagonista enfrenta a cidade inteira para salvar os irmãos de um linchamento. Na sequência, Lincoln mostra todo o poder de sua palavra e força se precisar para conseguir a chance de um julgamento justo (Uma atitude que seria importante na Guerra Civil em seu governo como presidente). O ponto de vista do expectador é igual ao do personagem, uma sensação que compartilha a relação de ambos diante da irracionalidade das massas. “Parece que perdemos a cabeça nos tempos atuais, fazemos coisas em grupo, que nos envergonharia se fizéssemos sozinhos”.

ns_youngmrlincoln-100031906-origA cena é semelhante ao aconteceria com o Juiz Priest em O Sol Brilha na Imensidão (The Sun Shines Bright, 1953) na hora de proteger um negro acusado de um estupro injustamente.

Assim como o personagem emblemático de Charles Winninger, pode se dizer que o personagem de Henry Fonda salvou a nação de si mesmo. A sua espontaneidade, a mesma maneira de se dirigir tanto com os ricos quanto aos pobres, o seu jeito de fazer todos rirem e a sua retórica com retorno imediato o colocam em um processo de formação de um herói. Simplificando, é como se Juiz Priest (Relembrando também Will Rogers no longa de 1934) estivesse a caminho de se tornar presidente dos EUA. Na abertura e no fim, Glória, Glória, Aleluia de The Battle Hymn of the Republic revela que não estamos lidando com uma pessoa comum, mas um homem que mudaria e moldaria a História dos Estados Unidos da América. Um homem que salvou o país de si mesmo.

a John Ford Young Mr. Lincoln Henry Fonda DVD Review PDVD_007O artigo O cinema e o mito da democracia americana: Abraham Lincoln e John Ford, de Eduardo Morettin faz uma reflexão sobre as camadas que envolve o longa.

(…) Depois de ele conseguir demonstrar no tribunal a inocência dos Clay, chegamos aos momentos finais de Young Mr. Lincoln. O futuro presidente se encontra pela última vez com a família. Após a conversa, afasta-se, dizendo que irá ao topo de uma montanha, caminhada que é trabalhada na chave alegórica, dada a referência à ascese bíblica presente nesta imagem. Abe inicia a caminhada, acompanhada em crescendo pela música de abertura, o hino The Battle Hymn of the Republic.

056-henry-fonda-theredlistEsse acompanhamento musical indica o fechamento de ciclo, correspondente à sua formação, antes do “sacrifício”. Ele pode se lançar ao espaço público, nova etapa de sua carreira. Seguindo a diligência dos Clay, símbolo da conquista do Oeste (lembremos do filme Stagecoach, realizado no mesmo ano por Ford), vemos a carruagem desaparecer no horizonte. Ao lado de uma cerca, vemos ao longe, ao centro do plano, lugar por excelência da personagem, a silhueta do mediador Lincoln.

Essa imagem reforça a dimensão de fronteiras, com a personagem situada nesse campo que é espaço da civilização e, ao mesmo tempo, da natureza. A sua tarefa simbólica foi e será a de complementar esse processo de ocupação e formação.

O tempo piora, e Lincoln chega ao topo. Enfrentando o vento e a chuva, sinal das adversidades que virão, sai de campo pela nossa direita. O espaço fica vazio sem sua presença, e a chuva toma dele conta. Depois da fusão, a chuva permanece, mas na transição identificamos em dois planos finais a estátua de Lincoln no memorial a ele erigido em Washington. (…)

Continua com No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939)

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