#MOSTRASP: MIGUEL GOMES E MANOEL DE OLIVEIRA

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Portugal sempre foi bem representado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Os filmes de Manoel de Oliveira praticamente não entram no circuito do país, porém a presença na programação do evento é uma constante. Seja em retrospectiva ou em lançamento. Outro cineasta lusitano que tem ganhado notoriedade e espaço na Mostra é Miguel Gomes.

Com a morte de Manoel de Oliveira aos 106 anos, parecia que não teríamos mais filmes do diretor na 39ª Mostra Internacional. A surpresa veio com Visita ou Memória e Confissões, longa realizado em 1982, que o cineasta fez quando estava com 73 anos. A obra foi guardada e somente seria exibida após sua morte. A história ganhou uma cara de lenda, porém se mostrou realidade. Manoel achava que estava prestes a morrer, mas isso demorou, ótimo para nós!

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A partir de memórias e confissões, este documentário póstumo, relata a importância que uma residência teve na vida do realizador. Com um movimento de câmera minimalista, entramos na vida do cineasta, em suas reflexões, o seu mundo, o seu cinema. O filme tem tom de despedida, pois ele foi obrigado a vender a casa em função das dívidas. Um homem que lutava para fazer o cinema, sempre lutou na verdade.

Outro conterrâneo que vai pelo mesmo caminho é Miguel Gomes.  Em seu mais recente projeto, o diretor se torna personagem, mostra suas angústias ao querer trabalhar com um filme que consegue englobar os problemas vividos pelo país e conseguir um financiamento ao mesmo tempo. E nesse cenário que se desenvolve As Mil e Uma Noites, uma trilogia totalmente inspirada na jornada de Xerazade, que por meio de fábulas dá um panorama atual de Portugal após a austeridade fiscal que deixou a população mais pobre.

003O Volume 1, O Inquieto reúne  O Homem de Pau Feito que alfineta os lordes responsáveis por orquestrar a crise, A História do Galo e do Fogo mostra que o único que sabe das coisas e tem a razão ao seu lado é um animal. O Banho dos Magníficos é onde a fronteira entre documentário e ficção se mescla e não sabemos onde começa um e termina o outro. É nesse conto que sabemos os efeitos da crise sofridos pelos portugueses.

02-arabian-nights-vol1O retrocesso social é evidenciado a cada depoimento, o desemprego assolando sem parar. A inquietude das cenas revelam as pessoas no sentido da existência, elas estão ali, não podem ser simplesmente diluídas em números. A obra de Gomes flerta um pouco com o neorrealismo na ideia de utilizar anônimos como atores, dar mais veracidade e se aproxima mais do real. Pode se fazer um paralelo com Vidros Partidos (Victor Erice), um dos pilares do longa longa-metragem coletivo: Centro Histórico, que celebra a cidade de Guimarães, no norte de Portugal. O recorte traz o declínio de uma das principais fábricas do ramo têxtil no século XIX na Europa. O apogeu virou história por meio das pessoas que deram a vida trabalhando no local.

005O Volume 2, O Desolado agrupa os contos Crônica de Fuga de Simão Sem Tripas, onde um senhor outsider simplesmente se recusa a conviver com os padrões normais da sociedade, não condiz mais com a realidade. Vive em meio ao relento, ninguém consegue lhe capturar. Sua atitude é recebida como heroica, nunca se ajoelhou ao sistema.

001 (1)As Lágrimas da Juíza tem uma estética totalmente teatral, onde um problema vai se revelando um ciclo vicioso, um novelo sem fim. Afeta todos os tramites e classes de um país. Já Os Donos de Dixie mostra a preocupação de várias pessoas em torno de um cachorro que precisa de um lar. Pelos meandros, descobrimos que o animal é o único que se contenta consigo, diferentemente das pessoas que o rodeiam, não conseguem demostrar unidade, o pessimismo tomou conta.

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O Volume 3, O Encantado coloca em cena Xerazade, O Inebriante Canto dos Tentilhões e Floresta Quente. Xerazade (Crista Alfaiate) não sabe se ainda conseguirá agradar ao Rei por outras noites. Ela deixa o palácio disposta a conhecer o mundo exterior e, ao retornar, conta a história de uma comunidade de homens em Lisboa que ensinavam os pássaros a cantar.

Mesmo com toda a adversidade, o povo tenta sobreviver, assim como os tentilhões tentam cantar, Xerazade contar suas histórias, e por fim, Miguel Gomes fazer os seus filmes. Portugal caminha a esmo, sem rumo, mas sempre tentando.arabiannights-reviewÉ impressionante como cineasta consegue colocar várias camadas sociais que envolvem o seu país em uma mesma obra. A fragmentação narrativa, o tom documental/ficção, o esfacelamento de uma nação, uma homenagem ao cinema.  Manoel deixou um legado que já tem um excelente seguidor. O único problema são as austeridades sofridas por ambos na hora de concluir um trabalho ou quaisquer outros projetos.

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