NIGHT AND FOG

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night-and-fog-dvdUm documentário sobre o holocausto. Existem tantos, porém poucos conseguem atingir alto nível de dramaticidade e questionamentos como Night and Fog, de Alain Resnais.

Nas palavras do ensaísta Philip Lopate, o trabalho do diretor francês é um “antidocumentário”, pois é impossível documentar esta realidade particular cheia de ódio. O papel de Resnais é questionar e tentar entender o que aconteceu dez anos depois dos campos de concentração serem libertados, onde as feridas estão extremamente abertas e o silêncio dos campos  Auschwitz e Majdanek grita a cada imagem. As palavras do poeta francês Jean Cayrol (Ex-prisioneiro em um campo nazista) e a música de Hanns Eisler ajudam a criar a atmosfera. Continuar lendo

DRAMAS… E MAIS DRAMAS

palaciodofimfoto-Guga-Melgar-122-baixaPara quem gosta de drama, três peças são indispensáveis.

Palácio do Fim

Espetáculo une três histórias reais que foram afetadas de alguma forma pela Guerra do Iraque. Camila Morgado dá vida à oficial americana Lynndie England, responsável por aquitetar atrocidades contra prisioneiros de guerra. Antonio Petrin vive o cientista inglês David Kelly, um homem que enfrenta a amargura e o remorso após defender a tese de que o país iraquiano possuía armas de destruição em massa. Já Vera Holtz é a ativista comunista Nehrjas Al Saffarh, que sofreu e também presenciou a tortura dos próprios filhos pelo governo de Saddam Hussein. A direção é de José Wilker e a dramaturgia ficou por conta da canadense Judith Thompson. foto Guga  Melgar 101 baixa

“Jurando fidelidade à bandeira em cada dia dos meus vinte e três anos de idade! Então, quando eu soube do recrutamento, e veio aquele oficial bem apessoado, falando comigo, tão atencioso, estilo Tom Hanks, eu disse “claro, farei o que for preciso para defender o meu país”. Eu não fazia nada demais, só trabalhava numa lanchonete… “Posso anotar seu pedido? Fritas para acompanhar? Sundae de sobremesa?” Eu não fazia nada pelo meu país, fora engordar a sua população. Nem do inferno eu voltaria pra trabalhar naquela fábrica de obesos. Eu me alistei naquele mesmo dia…

(Canta o grito de guerra.) “Na escola eu ganhava toda vez. Eu tenho um M16.” Tinha um grito de guerra, que a gente cantava no exército, pra motivar… Ou então: “Sigo em frente com muita saúde. Vou marchar em Hollywood. Levante a cabeça, preste atenção. É o terceiro pelotão. Vire o rosto e feche os olhos. Nós marchamos entre os mortos.” Essa parte é triste, eu sei… Depois vem: “Voando baixo somos maus. Explodimos nosso alvo. Ouça os gritos na lembrança. Morreu mais uma criança.” Shhh… Não podemos cantar essa parte, foi proibida, mas a gente canta. É a tradição. Faz parte do exército. Não quer dizer que eu concorde com a letra. A maioria de nós, soldados, adora criança e fica triste quando vê criança machucada.” (Trecho da personagem de Camila Morgado)

10_FHA_rshow_palacio3“Não consigo entender. Digo… Como cientista, eu sei que é verdade. Sei exatamente o que se passa dentro do meu corpo. Sei quanto tempo falta para o meu fígado parar de funcionar. Logo sentirei os efeitos da perda de sangue. Se eu não for encontrado certamente morrerei, aceito este fato, mas… Essa história de “para sempre” é um tanto assustadora… Se eu morresse apenas por um tempo, até mesmo por cinco ou seis anos, até que acabe essa bagunça no Iraque… Se ao menos soubesse que um dia eu voltaria para casa…

A idéia de “nunca mais” beber um suco de laranja, ou “nunca mais” ver os olhos da minha filha… “ (Trecho do personagem de Antonio Petrin)

90349_CIA_30662“E ele girava… E eu não falei nada… O bebê se revirava na minha barriga… Eu desmaiei várias vezes… Horas depois, meu filho já estava inconsciente. Eles o jogaram no telhado. Era inverno, fazia muito frio. Ele não tinha um casaco. Eles me prenderam no sótão, amarrada, logo abaixo do telhado. Ainda assim eu não falei. Fiquei lá por mais alguns dias. Só continuei respirando porque dava para ouvir a tosse do meu filho. Ele estava doente, com pneumonia, mas ainda vivo… Eu poderia cuidar da saúde dele… Eu tinha certeza de que no último instante eles nos soltariam. Por isso não falei. Cada hora parecia um dia. Cada dia parecia um ano… E sua tosse ficava mais forte, mais alta… Até que ficou mais fraca… Por que eu não falei? Cada vez mais fraca… Até que ele parou de tossir.

Entraram na sala rindo de mim: “Encontramos seu marido, mulher estúpida. Sinto muito pelo seu filho. Ele seria solto hoje mas tinha a saúde muito frágil. Está com Allah.” (Trecho da personagem de Vera Holtz)

Palácio do Fim é um mistura de poesia e barbárie. Apesar dos personagens pertencer a universos diferentes, são todos vítimas de uma mesma tragédia. São espectros que vagam em uma realidade paralela.

A Construção

19656No conto homônimo, uma criatura constrói uma toca subterrânea para se proteger dos perigos do mundo externo. No palco, o ator Caco Ciocler é Franz Kafka escrevendo em seu quarto, madrugada adentro, tomando cuidado para não acordar o pai que dorme no quarto ao lado. A peça retrata o exato momento do processo de criação dessa trama de 1923.

Durante a encenação, criador e criatura se confundem. O ator está interpretando uma criatura (Olhe o tom de voz de Caco Cicioler, foge dos padrões humanos) ou o próprio Kafka que se encontra no final da vida e sofre de tuberculose. Além disso, o espaço cênico intimista do SESC Pompeia coloca a plateia em uma verdadeira toca que impressiona com o jogo de luz e sombra.

As Troianas – As Vozes da Guerra

22217Essa é uma adaptação de Zé Henrique de Paula para peça de Eurípides. A trama faz um paralelo entre a Guerra de Troia e a II Guerra Mundial. A peça transformou as sobreviventes troianas nas judias arrasadas pelo holocausto. Frases em alemão e até a entrada de Auschwitz (“Arbeit macht frei” – “O trabalho liberta”) estão em cena para levar o público para dentro dessas duas tragédias. Mesmo separadas pelo tempo, ambos têm como ponto em comum a dor. Vale destacar os cantos que as atrizes entoam durante a interpretação. Aliás, o Núcleo Experimental está com sua sede recém inaugurada na Barra Funda. Vale a pena conferir.